quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

CENTENÁRIO DAS LINHAS TELEGRÁFICAS EM RONDÔNIA

       
Comissão das Linhas Telegráficas - Rondon - 1907 -1915
             Se a chegada da expedição colombina às Antilhas, em 1492, contribuiu para ampliação do horizonte geográfico e cultural dos europeus no final do século XV, uma vez que as terras recém-descobertas tornaram-se uma gigantesca periferia do mundo, as várias expedições conquistadoras, que trilharam o Novo Mundo ao longo do século XVI, revelaram, por seu turno, que nesta imensa “margem do mundo”, havia outras margens. Foi assim que, a partir das Antilhas, as regiões de terra firme do continente americano foram sendo conquistadas. No primeiro momento, foi a região mesoamericana, tendo a derrota da Confederação Asteca como seu principal triunfo. No segundo, já a partir do que hoje é o Panamá, foi a vez dos Andes Centrais,e com prêmio, o Império Inca.
             Foi nesse processo de conquista colonial que a região amazônica tornou-se uma das margens do Novo Mundo, um vasto desconhecido. Porém, um vasto desconhecido que, ao contrário do que ocorreu com o Vale Mexicano ou com os Andes Centrais – “margens” que se tornaram “centros” do mundo colonial -, continuou nessa condição, vindo até os dias de hoje.
Marechal Cândido Rondon
               Sendo uma das “margens” – limites – do Novo Mundo, a Amazônia, como região ainda bastante desconhecida pelos europeus, tornou-se, ao lado de outras “margens americanas”, um alimento para imaginação coletiva. Em suma: à medida que a conquista europeia prosseguia, o empirismo do devassamento era acompanhado por expectativas e projeções oriundas de um universo mental carregado de componentes de longa duração e outros simbolismos. Desejos da conquista e colonização são escravos das canoas, e estas dos rios. Pelas estradas naturais da Amazônia seguiram bandeirantes, índios, missões, moções, entradas, sertanistas e quilombolas. Os sertões são transformados em paisagens movediças. Estão em todos os lugares. Ressurgem ou desaparecem. Tanto lugares de passagem das narrativas que enfatizam a dominação como portos seguros para quem procura proteção. Mapas e desenhos consolidam a dominação. Cenários ocultam e ao mesmo tempo desvelam os sertões.
Marechal Rondon idealizador do SPI - Serviço de Proteção ao Índio - 1910

            Diante de muitas incertezas e obscuridade sobre a região Amazônica em Rondônia, o presidente da República Afonso Pena, incumbiu um homem, que trazia consigo o espírito dos povos indígenas, o respeito pela floresta dos quilombolas, e a coragem e determinação bandeirantes e exploradores, estes personagens do passado, Mas, que se faziam presente em atitudes positivas no que tange ao percurso doloroso que Rondon travou em meio ao vasto desconhecido, trazendo após anos de trabalho, um pouco da floresta ao povo brasileiro, que ainda era povoado por lendas, mistérios e vazios científicos. Marechal Rondon, foi em seu tempo o homem certo, para uma missão incerta. O militar aguerrido, que evitada guerra contra índios. O positivista convicto em busca da Ordem e do Progresso.

 1907, O COMEÇO DE TUDO.

Em 1907, o oficial do corpo de engenharia militar, Cândido Mariano da Silva Rondon foi encarregado pelo governo federal de implantar a linha telegráfica entre Mato Grosso e Amazonas ( atualmente parte de Rondônia), tendo como extremos a cidade de Cuiabá e Santo Antônio do Rio Madeira, povoado que se localizava a 7 km acima da atual capital de Rondônia.


                Rondon a implantou depois de cortar toda uma região que Roquete Pinto sugeriu em 1915, chamar-se “terras de Rondônia”, local etnográfico entre Juruena e o Madeira, cortado pela linha telegráfica já conhecida por “Estrada Rondon”. Para bom desempenho do seu trabalho o sertanista dividiu-o em três grandes etapas denominadas “expedições” e que foram: A expedição de 1907, que levantou o trecho entre Cuiabá e o rio Juruena, fazendo um total de 1.781 km de reconhecimento; A expedição de 1908, que efetuou 1,653 km de reconhecimento, tendo varado o inóspito trecho entre Juruena e a Serra do Norte; A expedição de 1909, a mais famosa de todas, com 2.232 km de reconhecimento e incrível varação pelas florestas intrínsecas da Amazônia, saída da Serra do Norte até o caudaloso rio Madeira.

A EXPEDIÇÃO DE 1907

              A empreitada teve início em 2 de setembro de 1907 e, no dia 29 de novembro, já estava de regresso a Diamantino, após ter chegado a Juruena. Era aquele ponto que seria conquistado pela Comissão Rondon em sua primeira penetração pelos sertões, depois da partida de Cuiabá, e passagem pelos vilarejos de Guia, Brotas e Rosário, trajetória da linha telegráfica. Entretanto, os 89 dias contados pela Expedição foram a partir de Diamantino, quando começaram a abrir o piquete de penetração. A coluna foi composta pelo até então Major Rondon como comandante; ajudante o 2° tenente João Salustiano Lyra; o farmacêutico Benedito Canavarros; o fotógrafo Luiz Leduc; e mais 16 praças e empregados auxiliados por 34 muares e 4 bois cargueiros.

Membros da Comissão após abaterem um anta, para complementar a alimentação.
             Munidos de uma trompa que lhes servia acústica, os expedicionários andavam a cavalo quando o local permitia, seguindo o “picador” com a bússola de algibeira do chefe. Um homem era encarregado de medir a distância por intermédio do passômetro de um dos animais escolhido para aquela finalidade. O picador iria à frente marcando as árvores por onde deveriam passar os foiceiros e machadeiros, denominados assim naquela épocas, os bravos homens que seguiam a frente da abertura dos caminhos da Comissão Rondon.
            Ao meio-dia já os trabalhadores deveriam escolher o local para acamparem, pois que haviam saído pela madrugada depois da primeira refeição e mesmo porque os picadeiros, mais lentos, haveriam de chegar muito mais tarde, quando então se reuniam para avaliação dos feitos diários e, após a terceira refeição, às 22 horas, soava o toque do silêncio.
Comissão Rondon em Rondônia - 1915
         Cinco dias depois da saída de Diamantino, os expedicionários entraram em contato com os índios Parecis, na cachoeira do Kágado, a 74 km de Diamantino, quando Rondon mandou fincar um mastro no qual se fez o hasteamento do pavilhão nacional pelo cacique da tribo; ao mesmo tempo incorporou o parecis Zavadá-issu como guia. Aqueles índios já eram pacificados, sendo que muitos trabalhavam com proprietários de seringais.
       Em 10 de outubro, os sertanistas chegavam as margens do rio Sauêuna, divisa com dos domínios Parecis e Nhambiquaras. Transposto o rio, a mata exigiu mais um sacrifício da Comissão que passaria a andar somente a pé, pois que o cerrado exigia maior número de braços na abertura do pique. Ainda em outubro a Comissão Exploradora chegara ao Jacy e, prosseguindo, varou várias trilhas de índios e, finalmente, no dia 20 chegaram à margem do Juruena.

EXPLORAR É PRECISO, EXPEDIÇÃO DE 1908.

      Entre os dias 20 de julho a 3 de novembro do ano de 1908, a coluna expedicionária de Rondon voltou a percorrer o trecho já conquistado e mais a parte compreendida entre Juruena e Serra do Norte, desta feita com número maior de expedicionários – 127 homens bem armados, 90 bois de carga, 50 burros, 6 cavalos e mais 20 bois para corte. Os principais expedicionários eram, além de Rondon, os segundos-tenentes Nicolau Bueno Horta Barbosa, Emanuel Silvestre Amarante, João Salustiano Lira e tenente médico Manoel de Andrade, tenentes Carlos Carmo de Oliveira Melo e Américo Vespúcio Pinto da Rocha, o farmacêutico Benedito Canavarros, o fotógrafo Luiz Leduc, um inspetor e dois guarda-fios, 30 tropeiros e 82 praças do exército que seriam homens comandados pelo 2° tenente Joaquim Ferreira da Silva que tinham como missão, além do apoio que ofereciam aos demais expedicionários, pacificarem os ferozes Nhambiquaras para a facilitação dos trabalhos de implantação da linha telegráfica. Eles eram, defendiam sua morada, não deram descanso aos expedicionários que se viam também com extravio dos animais, seja por adoecerem ou mesmo fugirem. Alguns “soldados de espírito fraco”[1], como os denominou Rondon, chegaram a desertar, apavorados com o desconhecido.
índios contactados pela Comissão Rondon - 1913
A fome os castigou violentamente, pois largaram os víveres na estrada, pela falta de animais para os conduzirem ou por estragarem. Em outubro, Rondon já se encontrava divisando a Serra do Norte e transpôs o rio que denominou Nhambiquara. Nos dias 10 e 11, os sertanista fez travessia dos igarapés que denominou Veado Branco, Assaí, Jacutinga, Guariboca, Gruta da Pedra, Garnica, Traíra, dentre outros. Dali, a 5 km do rio Nhambiquara, Rondon regressou ao ponto de partida.
Como da vez anterior, o chefe anterior, o chefe da coluna expedicionária mandou colocar em giraus todo o material que servira na abertura da picada, além de ter salgado sete bois que lhes restavam e que ficariam como presente aos índios que pretendiam pacificar.
Aquela expedição sofreu, além dos ataques dos índios que naturalmente defendiam sua morada, também o aparecimento do impaludismo que chegou a vitimar um de seus homens. Sendo assim, Rondon então regressou a Tapirapoã, local de onde partira a coluna, no dia 22 de dezembro de 1908, onde posteriormente o Marechal Rondon dissolveu a Comissão Exploradora.

RONDON EM RONDÔNIA: EXPEDIÇÃO DE 1909.


Membros da Comissão Rondon em Jaru
Em seu caminho pelas florestas inexploradas, tribos hostis foram o menor dos percalços onde hoje são consideradas terras do Estado de Rondônia. Doenças como malária sugaram as forças das tropas que o acompanharam e mataram muitos dos seus homens. O próprio Rondon esteve à beira da morte. A caminhada pela floresta era dura. A fome sempre rondava, já que não havia, inicialmente, postos de reabastecimento. Muitas vezes, os soldados precisavam caçar o alimento do dia. O resultado era uma enorme quantidade de deserções entre os praças designados para trabalhar com o marechal. “ A nossa resistência física se dobrava sob o peso da fome e das privações de toda sorte que nos atormentaram durante a travessia”, declarou Rondon sobre sua segunda expedição ao Rio Madeira.[2]
Ainda assim, o militar e seus mandados foram abrindo caminho por entre árvores e rios, levantando postes e construindo postos de telégrafo em meio à selva em Rondônia. No entanto, como conta Todd Diacon[3], os números mostram que a obra não significou uma revolução em termos de comunicação para a região. Uma das estações, por exemplo, a Presidente Hermes (Situada em Presidente Médice-RO), só mandou 38 telegramas em 1924, e só recebeu 15 ao longo daquele ano.
Estação Telegráfica Álvaro Vilhena - 1911
Quando o último prego da linha telegráfica ligando Cuiabá a Rondônia foi pregado, a tecnologia das transmissões por rádio se estabeleceu e criou-se o telégrafo sem fio. O importante não foi a linha em si, e sim a exploração de uma região inexplorada e o contato cordial com os indígenas. Rondon era um excelente geógrafo e naturalista, trouxe as primeiras informações sobre muitos lugares da Amazônia. Trouxe conhecimento do território, de plantas, animais, além da descrição de tribos e seus costumes. Além disso, foi ele quem convenceu a população brasileira de que valia a pena defender os índios.
Dessa forma, claro que a Terceira Expedição de 1909 foi a mais importante das expedições para Rondônia. Pois a mesma varou todo o sertão do atual Estado em travessia que durou 237 dias de maio até dezembro, numa extensão superior a 800 quilômetros e, duas turmas organizadas por Rondon e denominadas turma Norte e turma Sul, sendo que, enquanto a norte procurava localizar a cabeceira do rio Jacy-Paraná, cabia à turma sul a tarefa de reconhecimento e exploração do terreno compreendido entre Serra do Norte e o Rio Madeira, esta sob a chefia do então tenente-coronel de engenharia Cândido Mariano da Silva Rondon e mais os subalternos zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro, 1° tenente médico Dr. Joaquim Augusto Tanajura, 1° Tenente militar João Salustiano Lyra, 1° tenente Engenheiro militar Emanuel Silvestre do Amarante, 1° tenente Alicariense Fernandes da Costa, 2° tenente Antônio Pirineus de Souza, guarda-fio Pedro Creveiro Teixeira, guarda-fio João de Deus e Silva, cacique parecis major Libanio Koluizorocê, guia índio Joaquim Zolámaie, 14 praças do exército e 18 trabalhadores civis.

Membros da Comissão Rondon em Cadeias do Jamari em 1912
Como se tratava de uma das mais ricas arriscadas missões da coluna expedicionária, Rondon preocupou-se tomar algumas decisões, tais como exigir de seus auxiliares, rigoroso exame sanitário visando a sondar o estado físico necessário aos andarilhos que seriam a partir de então. Nos Campos Novos, no local por ele denominado Mata da Canga, os índios fizeram emboscadas que resultaram na morte do soldado Rosendo, nos Campos de Comemoração de Floriano ( em Pimenta Bueno), os expedicionários se detiveram 51 dias, procurando localizar as cabeceiras que davam para os rios Guaporé, Madeira e Tapajós – um platô que foi explorado minuciosamente até o dia 21 de agosto daquele ano. No dia 14 de setembro, a coluna passou por uma aldeia de índios que fora visitada por Rondon.
Abertura de picadão para a denominada estrada Rondon, por onde passavam os fios.
No dia 9 de outubro, no km 354 da exploração, os expedicionários descobriam um rio de 50 metros de largura, a que Rondon deu o nome de Pimenta Bueno. No dia 24 de outubro, a turma teria se dividido conforme orientação de Rondon. O mesmo chefiava uma turma de 28 homens e, em dezembro, viu-se bastante prejudicado com a falta de alimentos, mas no dia 25, a expedição chegava ao ponto desejado, Santo Antônio do Rio Madeira, quando o chefe da turma proferiu o seguinte discurso:
“ Heroicos e dedicados companheiros, não ofenderei a modéstia que orna o vosso diamantino caráter, afirmando-vos que à vossa coragem e patriotismo devemos a conclusão deste reconhecimento de sua organização. Entretanto, aqui nos achamos à margem do rio Madeira, com a marcha de 1.415 km, a contar do porto de Tapirapoã, um levantamento topográfico de 1.211 km, inclusive 200km de variantes diversas e 354 km do curso do rio Jamary, compreendido entre o repartimento e a barra e determinação de 15 posições geográficas dos pontos em que nos foi possível fazer observações astronômicas para tanto”[4]



[1] MAGALHÃES, Amilcar A. Botelho – Pelos Sertões do Brasil. Porto Alegre, Globo – 1930.  pág.244.
[2]VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010.
[3] DIACON, Todd A. Rondon. Companhia das Letras. São Paulo, 2006.
[4] [4] MAGALHÃES, Amilcar A. Botelho – Pelos Sertões do Brasil. Porto Alegre, Globo – 1930.



Aleks Palitot 
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Rondônia: um mosaico de história e cultura.

Um lugar de riquezas históricas e culturais variadas. Assim é Rondônia, um Estado novo, com fortes traços indígenas e diversas influências culturais que, ao longo do tempo, formou uma cultura única, miscigenada, como em nenhum outro local. Essa expressão cultural do Estado está presente na rica gastronomia, no folclore, na beleza do artesanato e na sua história, que possui capítulos de momentos e ciclos econômicos, que proporcionou ao homem encarar inúmeros desafios em meio à grande Floresta Amazônica; homens que deram o suor, o sangue e a vida por uma grande história.
Aleks Palitot em frente ao Real Forte Príncipe da Beira - 2013 
O desafio dos desbravadores de Rondônia tem sua primeira página escrita na história, no momento da chegada de sertanistas e bandeirantes nessa região, homens como Raposo Tavares e Francisco Palheta, que ousaram encarar as regiões mais inóspitas do Brasil Colônia, para garantir no passado à coroa portuguesa, a posse desse rico território. Durante o período de exploração dos vales do Madeira, Mamoré e Guaporé, vivemos o ciclo do ouro e das drogas dos sertões, o homem busca a riqueza a todo custo, enfrenta índios, o calor, a fome e as doenças. É constantemente energizado com o sonho do Eldorado, com a possibilidade de conseguir riquezas alçando assim, parte de seus objetivos.
Marechal Rondon com sua comissão no Forte
Para garantir a posse de nossa região, a Coroa Portuguesa deu ordens para construir fortificações com o propósito de combater os invasores espanhóis e estabelecer aqui o controle das terras amazônicas. Foi incumbido de tal missão, a figura histórica de Antônio Rolim de Moura que construiu as margens do rio Guaporé o Forte Nossa Senhora da Conceição, garantindo através das armas a resistência contra os invasores espanhóis. Logo depois em que o Forte Conceição posteriormente renomeado Bragança foi destruído por uma grande inundação, Luiz de Mello Pereira e Cárceres inicia em 1776, a construção de uma obra prima em meio a Amazônia, o monumento mais antigo de Rondônia, o Real Forte do Príncipe da Beira, que é considerado um dos maiores fortes da história do Brasil. Apesar de nunca ter dado um tiro com suas cinqüenta e seis canhoneiras, esse grande monumento bélico foi importante para demarcar os territórios guaporeanos pertencentes na atualidade ao nosso Estado de Rondônia.
Aleks Palitot no Rio Machado em Presidente Médice - 2014
Rondônia também viveu os tempos áureos do ciclo da borracha, foi daqui dos Vales do Madeira, Mamoré e Guaporé que saiu o ouro branco, o látex, a tão desejada borracha, destinada aos centros industriais da Europa e dos Estados Unidos. Foi nesse contexto que a nossa miscigenação ganhou força, ganhou detalhes formidáveis, eis que surge na nossa história o migrante nordestino, quem vêm para Rondônia em busca de melhores dias e aqui, se veste de coragem e esperança em dias melhores, longe da seca do nordeste brasileiro. É aqui na Amazônia que os elementos culturais nordestinos vão se misturar aos valores e realidade cabocla e beradeira. É portanto, durante o ciclo da borracha que o homem entende que se faz necessário manter a floresta em pé, ter-la assim é sinônimo de desenvolvimento, lucro e futuro. É do corte da seringueira que se extrair a vida, o dinheiro e o sustento.
Aleks Palitot no topo da Serra dos Pakaas em Guajará- Mirim - 2014
Para o ouro branco, a borracha, chegar mais rápido aos grandes centros, Rondônia, ainda retalhos das Províncias do Amazonas e Mato Grosso, viveu um dos maiores desafios enfrentados pelo homem. O Trem Fantasma, a Ferrovia da Morte, a Estrada de Ferro Madeira Mamoré que se tornou, a mais nova obsessão dos pioneiros de Rondônia. Havia a necessidade de escoar a grande produção da borracha, que encontrava dificuldades entre os trechos de saltos e corredeiras entre os Rios Madeira e Mamoré. Não foi fácil, foram necessárias cinco empresas em quarenta anos para consolidar a travessia daquilo que era o mais moderno do mundo, os trilhos e a sua Maria fumaça. Vidas foram ceifadas, lendas foram construídas e o sonho mais uma vez concretizado. Mas é de lendas e sonhos, que se fortalece o espírito humano e jamais será esquecida a proeza dos que viveram, sofreram e morreram pela Estrada de Ferro Madeira Mamoré. A velha locomotiva permanece viva no ideal de homens e mulheres que erguem a civilização ao longo de seus trilhos. Ela é a alma do povo, que têm o caráter o aço dos trilhos fincados com pregos de ouro e prata, no caminho da esperança e da fraternidade universal.
Aleks Palitot ao lado da Locomotiva da E.F.M.M. no distrito de Abunã - 2013
Rondônia com seu nome homenageia um dos personagens mais nobres de nossa história, o grande sertanista Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, nobre explorador que em 1909 por aqui chegou, e dois anos depois fundou a primeira Estação Telegráfica de Rondônia na localidade de Vilhena. A partir da Estação Álvaro Vilhena, este grande sertanista seguiu por todo o Estado até Porto Velho e depois Guajará-Mirim. Pelo mesmo traçado das Linhas Telegráficas de Rondon jovens aventureiros incentivados pelo Governador do Território Federal de Rondônia Paulo Nunes Leal, iniciaram em 28 de outubro de 1960 a Caravana Ford, que iria encarar o desafio de trafegar pela BR-29 inaugurada pelo presidente do Brasil Juscelino Kubitschek. Assim pelo mesmo lugar anos depois, os pioneiros do Quinto Batalhão de Engenharia e Construção iniciariam o asfaltamento da futura BR- 364.
Localidade do Iata no Rio Mamoré - \Guajará-Mirim - 2012
O Estado de Rondônia sempre foi palco de grandes histórias, de grandes aventuras e odisséias, mas nenhuma história ou momento foi mais especial do que a vinda dos migrantes na década de 70. Durante o Regime Militar foi deflagrado um projeto de ocupação da Amazônia, levar homens sem terras a uma terra sem homens. Nesse período a região é invadida e conquistada por milhares de pessoas de todos os recantos do Brasil, que chegam com seus sonhos e encaram muitos pesadelos. Tudo estava ainda por construir, e é com esses braços fortes e coragem no coração, que os brasileiros fazem Rondônia ser protagonista de um dos maiores surtos migratórios da história do Brasil. Homem importante nesse projeto foi o Coronel Jorge Teixeira, deixou de cuidar da própria saúde para garantir a criação do 23° Estado da Federação. Em 1982 o sonho daqueles que chegaram aqui se consolida, o Estado é criado mas, ainda nos resta a grande motivação de sempre acreditar que é possível melhorar. Hoje Rondônia mais uma vez vive um ciclo épico, e necessário que cada Rondoniense e Rondoniano possa lutar lembrando sempre daqueles que estiveram aqui antes de nós, e desempenharam com heroísmo a construção de nossa história.

Aleksander Palitot
Historiador
Reconhecido pelo MEC

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

50 ANOS DEPOIS, 5° BEC

         Se a vida naturalmente é feita de desafios, viver na Amazônia essa medida vai ao cubo. O que dizer então viver em Rondônia a exatos cinquenta anos atrás. Quando ainda éramos Território Federal, longe de tudo e de todos, mas perto de uma riqueza imensurável, chamada de Amazônia, que sempre foi palco e cenário de grandes expedições, aventuras, desafios e atos de pioneirismo. Desde os tempos mais remotos inúmeras vezes o homem ocidental foi convocado a viver e sobreviver em meio a grande floresta, cobiçada desde de sempre pelos olhos europeus.
         Mas foi na metade do século XX, que o clamor regional, de uma população que sobrevivia ao isolamento rodoviário, que ainda, mesmo que existindo algo do tipo, era precário e deficitário, uma nova empreitada seria vivenciada mais uma vez na tão cobiçada Amazônia em Rondônia, pelos membros do 5° Batalhão de Engenharia e Construção, o tão conhecido 5° BEC.
         A Rodovia BR 364 é tronco muito importante, não somente para Amazônia, mas principalmente para a região mais beneficiada pela sua presença – Rondônia. A rodovia foi o estopim que deflagrou a corrida para as terras de Rondônia, favorecendo grandemente o fornecimento dos gêneros de primeira necessidade, aumentando o fluxo migratório em busca das lavas de cassiterita e mais tarde, das terras utilizadas para agricultura através dos projetos de colonização do Governo Federal.
        Consolidada em 1966, quando ficou ligada Cuiabá com Porto Velho, graças ao trabalho do 5° BEC. Em Porto Velho, faz ligação com a BR 319 que segue com destino a Manaus, entregue ao tráfego desde 1973, quando concluído o asfaltamento, e infelizmente hoje, parcialmente deteriorada.

Desfile do 5° Batalhão de Engenharia e Construção
         Outras ligações, além da estrada que vai de Porto Velho – Abunã - Guajará Mirim – Rio Branco no Acre, surgiram como a estrada de Vilhena a Colorado. Todas com origem na BR 364 que, por sua vez, origina-se em Limeira na confluência com a via Anhangüera, no Estado de São Paulo.

O 5° BEC, sua trajetória em Rondônia. 
            
        Com a chegada do 5° BEC a Rondônia, incumbido de concluir a construção da rodovia Brasília-Acre e erradicar infelizmente a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, houve grandes modificações na rodovia. O 5° Batalhão de Engenharia e Construção foi criado em 1965, a exatos cinquenta anos e, já um ano após seu surgimento, iniciava seus trabalhos de complementação da estrada. Não seria desnecessário dizer-se da modificação que houve em Rondônia com sua chegada.
Chegada do primeiro comboio do 5° BEC
           Estávamos na segunda metade do mês de fevereiro quando chegaram. Houve boa receptividade por parte da população do Território Federal de Rondônia, pois, a mesma criara expectativas quanto a possível solução para o isolamento rodoviário da região. Naquela data, a capital do Território Porto Velho, ainda era uma cidade com ares provincial e pequena, e não cabia tanta gente assim de repente. O 5° BEC ocupou todas as casas disponíveis na cidade. Até a casa do Bispo, o antigo colégio Dom Bosco, foi ocupada por sargentos, tudo com o intuito que priorizar o asfaltamento da BR 364, sonho de muitos na época. As residências de antigos ferroviários – Caiari foram solicitadas e nelas colocaram oficiais. O prédio do 19° D.R.F. , foi ocupado, cedido, pelo chefe, Dr. Moura; também ocuparam o quartel da Guarda Territorial na Arigolândia.

Sede do 5° Batalhão em Porto Velho - Rondônia
            Com a chegada do 5° BEC a Porto Velho, houve muita alteração no quadro social, muita modificação de comportamento; estratificação das classes sociais, até estão indistintas. Na realidade os militares inicialmente vivenciaram certa insatisfação da população da cidade em alguns momentos. Exemplos como problemas de relacionamento com funcionários da Estrada de Ferro Madeira Mamoré ou civis em geral. Naturalmente coisas banais que, dado o volume de trabalho, não permitia aos oficiais o luxo de serem mais diplomáticos para resolvê-las. As medidas que eram tomadas por eles, nem sempre eram precedidas de um esclarecimento ao público e, evidente chocava a população.

LIBERDADE: UM NOVO BAIRRO EM PORTO VELHO

              A retirada de moradores da Baixa União por exemplo, transferidos para o bairro Liberdade, causou insatisfação, pela maneira que foi executada, embora os moradores antigos reconheçam ter ganhado na troca. A Baixa União ficava onde hoje é Avenida Rogério Weber, onde se localiza o Fórum, Receita Federal, Tribunal de Justiça Federal, Feira do Produtor e Camelódromo. Locais que em determinadas épocas sofriam alagamentos. A única vantagem era ficar perto do centro comercial e do trabalho.
            O 5° BEC fez tudo para justificar o ato, desde transportar o material das velhas casas de madeira até mandar construir as frentes das novas casas de alvenaria com cobertura de telhas de amianto. Hoje o bairro Liberdade, criado pelo 5° BEC, é um dos mais promissores, fica no centro geográfico de Porto Velho e é bem servido por órgãos públicos.
            Mesmo diante de alguns dilemas, a cidade foi substancialmente enriquecida culturalmente, pois os oficiais e suas esposas passaram a fazer parte ativa do magistério local e da sociedade. Com a chegada do 5° BEC, as escolas foram beneficiadas, pois principalmente as esposas dos militares achavam salutar ocupação em lecionar. Os colégios foram ampliados oferecendo maior número de vagas, e o 5° BEC chegou a construir mais escolas.
           Os oficiais que cooperavam com o ensino ministravam aulas no Carmela Dutra e Estudo e Trabalho, somente pela parte da noite, prática abandonada em razão das constantes viagens para as frentes de serviços, entretanto permaneciam os familiares. A prefeitura de Porto Velho encontrou no 5° BEC apoio muito grande, na abertura e encascalhamento das ruas, estradas vicinais, dentre outras benfeitorias feitas por força de convênios.
          
ASFALTAMENTO DA BR 364

            Quando Rondônia alcançou sua autonomia, transformando-se em Estado, apenas o trecho Ariquemes-Porto Velho, com 192 quilômetros era asfaltado; 48 destes ainda em estrada de chão; reserva para a represa de Samuel. Os trabalhos ali foram executados pelo 5° BEC, entretanto, toda a rodovia já se encontrava sofrendo reparos ou com máquinas das empreiteiras chegando ao local de trabalho.
Desembarque dos Maquinários do 5° BEC em Porto Velho - Rondônia
            Ao chegar a Porto Velho, para tomar posse como governador do território, o coronel Jorge Teixeira de Oliveira estabeleceu suas metas de trabalho, dentre as quais encontrava-se a pavimentação da BR 364. Como nenhum outro governador havia conseguido atingir tal objetivo, imediatamente fizeram corre boatos, na tentativa de desacreditá-lo perante a opinião pública. A oposição naquele momento foi liderada pelo deputado federal Jerônimo Santana, que tempos depois foi eleito Governador de Rondônia.
          Entretanto, Teixeira não desanimou, continuou a luta, e depois de muitas viagens e contatos com autoridades mais ligadas ao Território, conseguiu que fossem assinados, pelo ministro Eliseu Resende, na presença do presidente João Batista Figueiredo, 19 contratos (14 de empreiteiras e 5 de consultoria), para pavimentação da BR 364, rodovia Cuiabá-Porto Velho, no trecho Cárceres, no Mato Grosso a Ariquemes, em Rondônia, numa extensão de 1.040 km.
Trechos da antiga 029 hoje BR 364 - Rondônia
          As obras para pavimentação dos 1.442 quilômetros de Cuiabá-Porto Velho, concluídas em 1984, foram orçadas inicialmente em 35 bilhões de cruzeiros. Desse total, o Banco Mundial participara com um terço. Futuramente, o DNER estenderá o asfalto de Porto Velho até Rio Branco, numa extensão de 505 quilômetros, estabelecendo-se a ligação de todas a capitais brasileiras naquela época, por via pavimentada. Outro trecho que será pavimentado com atuação do 5° BEC, será Abunã – Guajará- Mirim.
Travessia de balsa no Rio Machado em Ji-Paraná pela 029
       A BR 364 foi o rastilho de estopim que deflagrou a ocupação de Rondônia. Graças ao empenho de Jorge Teixeira e dos trabalhos do 5° BEC esse sonho de muitos que viviam os tempos de isolamento se concretizou. Os migrantes vieram através de seu leito em grandes quantidades, ocupando espaços que encontravam através dos Projetos de Colonização do Governo Federal.
     A soma de forças e o empenho do 5° Batalhão de Engenharia e Construção, foram de suma importância para a consolidação do Estado de Rondônia, do qual era dependente do sucesso dos Projetos de Colonização, que fatalmente seriam inviabilizados na falta de uma rodovia asfaltada para o escoamento da produção e própria integração do Estado de Rondônia. 

Aleks Palitot 
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Rondon e Rondônia:100 anos das Linhas Telegráficas

           “Atacado pelos índios, Rondon tem seu rosto riscado por uma flecha. Um oficial grita: é uma vergonha se o Exército não der um corretivo exemplar àqueles selvagens. Rondon corta-lhe a palavra: ‘Quem representa o exército aqui sou eu, e o Exército não veio aqui fazer guerras. Os nambikuára não sabem que a nossa missão é de paz. Se esta terra fosse vossa e alguém visse roubá-la, ainda por cima, vos desses tiros, o que é que os senhores fariam apesar de civilizados? ’
       Mão firme e palavras como estas é que disciplinam a tropa. ” (GOMES, Emmanoel, 2012 :130)


Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.

O empenho e a atuação do Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, foi fundamental para revelar aos centros “políticos e desenvolvidos” do Brasil uma natureza fantástica, localizada no longínquo mundo amazônico do início do século XX, palco de outras inúmeras aventuras e personagens que desafiaram as adversidades que a floresta impõe aos invasores.
Árvores gigantescas e retorcidas, rios, lagos, cachoeiras, animais, mitos e lendas que descortinaram uma realidade cultural profunda com temperos, aromas exóticos e sedutores quase completamente desconhecidos pelo povo brasileiro.
Enganam-se os que associam à Comissão Rondon somente a construção de uma linha telegráfica entre Cuiabá, capital do Mato Grosso e Santo Antônio das Cachoeiras, localidade até então inconveniente para ocupação humana.

Derrubada de árvores para abrir caminhos as Linhas Telegráficas - 1913
Alguns, ainda seduzidos por pobres polêmicas, buscam diminuir a trajetória de Cândido Rondon focando sua atuação como “matador de índios ou protetor dos índios”. Afirmaria, com toda tranquilidade, que esse é o debate pobre e fútil sobre nosso maior personagem que serve somente para ridicularizar que o promove. Rondon liderou uma expedição épica, inimaginável, composta por profissionais com grande experiência e várias especialidades que desenvolveram estudos na área da geologia, botânica, cartografia, topografia e geografia, além de estudos sobre as nossas fronteiras, produzindo farto material sobre essa região da Amazônia.
A destemida expedição de Cândido Rondon deve, no mínimo, compor o cenário das grandes expedições filosóficas e científicas que percorreram o interior do Brasil e os rios amazônicos a partir do século XVIII. Condamine, Alexandre Rodrigues Ferreira, os austríacos Spix e Martius, o barão de Langsdorf, os ingleses Bates e Wallace, Dr. João Severiano da Fonseca e mais recentemente Claude Lévi Strauss compõem parte dessa galeria de grandes exploradores e pesquisadores.

Rondon na região fronteira entre Mato Grosso e Rondônia
Rondon foi muito além destes, pois carregava a missão de integrar um território e suas gentes ao restante do Brasil. Foi muito além das questões telegráficas e de fronteiras, dos estudos dos três reinos naturais: a fauna, a flora e o mineral. Rondon foi além das tentativas de integração dos povos que viviam em um mundo abandonado e esquecido na escuridão das florestas chuvosas, quentes e úmidas. Ele levou e representou os valores de uma pátria, carregou em si um Brasil inexistente na maior parte de seus gestos o que havia de melhor em nosso país naquele momento. É tarefa complicada para qualquer historiador encontrar um brasileiro com tamanha envergadura, espírito cívico, disposição e coragem.


Cândido Rondon não se contentou em revelar ao mundo as “Terras de Rondônia” como afirmou Roquete Pinto ou acompanhar o ex presidente americano Roosevelt em sua expedição a nossa região do atual estado de Rondônia. Ele percorreu a maior parte do território nacional em missões que somente os “homens gigantes” enfrentavam. Por isso, os mesmo se destacou nacionalmente e internacionalmente por suas preocupações com os povos indígenas, que sofriam constantes massacres sem a mínima atuação do Estado em seu socorro. Como criador do Serviço de Proteção ao Índio – SPI em 1910, instituição que se transformou em FUNAI em 1967, Fundação Nacional do Índio, Rondon procurou atuar na proteção e defesa dos povos e culturas indígenas.

Foto retirada do livro do historiador Emanuel Pontes Pinto
Cândido Rondon é indiscutivelmente o maior sertanista brasileiro de toda nossa história, é esse o foco que deveríamos investigar, pois sua atuação ainda ecoa sobre todos nós que moramos na porção ocidental do Brasil. A maioria dos estudos feitos sobre nosso mais conhecido personagem histórico nos informa sobre sua preocupação em preservar a cultura e as tribos indígenas.
Se houve conflitos, precisamos lembrar que Rondon atuou em uma época onde a cultura existente pregava uma lógica desenvolvimentista que elegia os povos indígenas como inimigos ou empecilho ao desenvolvimento urbano e “civilizado” da época, um período onde era comum crer na máxima: “índio bom é índio morto”. Rondon foi um verdadeiro brasileiro, em suas veias o sangue índio era evidente, sua brasilidade era enraizada ao tempero e ritmo de sua gente, é contra a lógica de genocídio que ele atua e milita. Seu ideal é o de um militar das “grandes causas humanitárias”. Em função dessa realidade, Rondon é um dos poucos personagens “oficiais” da nossa história que realmente merece ser promovido ao panteão de grande herói nacional.


RONDON, SUA OBRA E HISTÓRIA.


Cândido Mariano da Silva Rondon teve sua origem humilde. Filho de um tratador de animais, descendendo de espanhóis e índios terenas, de bandeirante, e bororos, agigantando-se em nossa história, destacando-se como militar, pacificador, cientista, construtor de estradas, de linhas telegráficas e inúmeros outros serviços prestados ao País. Rondon constituiu-se um símbolo da vontade humana, norteado pela religião que abraçou, baseada no amor à humanidade, tendo como seu lema: “morrer se preciso for, matar nunca”.
Nasceu Cândido Mariano da Silva Rondon a 5 de maio de 1865 na Sesmaria de Morro Redondo, nos Campos de Dourados, Estado do Mato Grosso, filho de Cândido Mariano da Silva e de sua esposa Dona Claudina Evangelista. Anos depois de seu nascimento acrescentou ao seu nome o sobrenome de seu tio e padrinho, Manuel Rondon, com a devida autorização do Ministério da Guerra.

Rondon em contato com índios entre Mato Grosso e Rondônia.
Graças a seu esforço e à sua capacidade nos estudos, o jovem natural de Campos de Mimoso, aos sete anos foi conduzido pelo tio a Cuiabá, iniciando seus estudos no Liceu Cuiabano e, já aos dezesseis anos, conseguiu um lugar de Professor do Ensino Primário na mesma instituição de ensino. Porém, seu espírito inquieto desejava maior dinâmica, o moço tinha vontade de ingressar na carreira militar e eis que em 26 de novembro de 1881 integrou-se no 3° Regimento de Artilharia à Cavalo e logo a seguir passou a frequentar a Escola Superior de Guerra, na Capital Federal. Figurou desde logo nos quadros de honra da Escola e pelo seu valor, já como 2° Tenente foi convidado para ministrar, na própria Escola, as cadeiras de Astronomia e Mecânica Racional.

Estação Telegráfica em Jaru - Rondônia
Rondon, a exemplo de uma lista imensa de outros sertanistas, demonstrou incrível coragem e determinação ao atuar em regiões tão inóspitas no interior do Brasil, deve ser citado ao lado de Antônio Rolim de Moura Tavares, primeiro governante da Capitania do Mato Grosso. Domingos Sambucet, Engenheiro que iniciou as obras do Real Forte Príncipe da Beira e faleceu de malária. Ricardo Franco de Almeida Serra, Engenheiro que trabalhou no Real Forte Príncipe da Beira após o falecimento de Sambucet. Francisco de Melo Palheta, bandeirante que introduziu as primeiras mudas de café no Brasil e percorreu o trajeto entre Belém do Pará e Vila Bela da Santíssima Trindade no mato Grosso em meados do século XVII. Luis de Albuquerque Melo Pereira e Cáceres, quarto Governador da Capitania do Mato Grosso, foi na sua gestão que se construiu o Forte Príncipe da Beira. Trabalhadores dos seringais e da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Francisco e Apoena Meireles, grandes sertanistas e indigenistas.

Rondon em trabalho na demarcação de fronteiras na Amazônia
Entre os vários títulos e homenagens, Marechal Rondon foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz no ano de 1925. O propositor de tal homenagem foi nada mais e nada menos que o maior físico da história da humanidade, Albert Einstein. Mais tarde, na década de 50, foi indicado novamente.
Nos anos de 1892 e 1898 ajudou a construir as linhas telegráficas de Mato Grosso a Goiás. Entre 1900 e 1906 dirigiu a construção de mais uma linha telegráfica, ligando Cuiabá e Corumbá, alcançando as fronteiras do Paraguai e Bolívia. No início do século XX encontrou as ruínas do Real Forte Príncipe da Beira, uma das maiores relíquias históricas de Rondônia. Em 1907, no posto de major do Corpo de Engenheiros Militares, foi nomeado chefe da comissão que deveria construir a linha telegráfica amazônica, e que foi denominada “Comissão Rondon”. Seus trabalhos desenvolveram-se de 1907 a 1915.

Atuação do Serviço de Proteção ao Índio - 1911
Em 1910 organizou e passou a dirigir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), criado em 7 de setembro de 1910. Em 12 de outubro de 1911 inaugurou a estação telegráfica de Vilhena, na fronteira do estado do Mato Grosso e Rondônia. Em 1914 participou da denominada expedição Roosevelt-Rondon, junto com o ex-presidente dos Estados Unidos da América, Theodore Roosevelt. Realizando novos estudos e descobertas na região. Durante o ano de 1914 a Comissão Rondon construiu em oito meses, 372 km de linhas e cinco estações: Pimenta Bueno, Presidente Hermes, Presidente Pena, Jaru e Ariquemes. No dia 1° de janeiro de 1915 inaugurou a estação telegráfica de Santo Antônio do Madeira, concluindo a gigantesca missão que lhe fora conferida.

Marechal Rondon - 1930
Por tantos e inúmeros feitos, em 5 de maio de 1955, data de seu aniversário de 90 anos, recebeu o título de Marechal do Exército Brasileiro concedido pelo Congresso Nacional. Homenageando o velho Marechal, em 17 de fevereiro de 1956, o Território Federal do Guaporé teve seu nome alterado para Território Federal de Rondônia. O grande líder e “cacique branco” como era denominado por alguns índios, veio a falecer no Rio de Janeiro, aos 92 anos, em 19 de janeiro de 1958. 

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098