segunda-feira, 4 de maio de 2015

RONDON: O GRANDE CHEFE

“Rondon, esta alma forte que se interna pelo sertão, na sublime missão de assistir o selvagem”. Paul Claudel

Marechal Rondon ao lado de Aluízio Pinheiro Ferreira
“A tradição viva da verdade militante é que há de ser o Homero de vossas glórias”. Rui Barbosa
        Palavras parecem não ser suficientes para narrar a epopeia de um homem cidadão do mundo amazônico, que árdua missão assumiu para integrar este canto do mundo ao Brasil. São os “fios da história” que levarão ao povo brasileiro a possibilidade de descobrir o Brasil mais uma vez. Rondon não se limitou a erguer postes telegráficos e construir estações. Ele foi além da missão, ele foi ao limite do mundo até então desconhecido, e assim, permitiu que a nossa Amazônia fosse conhecida com mais propriedade, com mais riqueza de detalhes e permitindo que este mundo verde não apenas fosse de fato integrado ao país, mas o inverso, sendo assim, a construção das Linhas Telegráficas da Comissão Rondon, para nós um legado histórico fantástico deixado pelo suor, dedicação e alma de um verdadeiro cidadão brasileiro.
Visita ao túmulo do cientista e amigo.
“Tem na sola dos pés o mais longo caminho jamais percorrido”. Jaguaribe de Matos
          A idéia de colocar os estados da região Norte em comunicação com o resto do país já vinha sendo discutida desde o período do Império. Com a proclamação da República, o governo colocara em prática o projeto e criara a Comissão Construtora das Linhas Telegráficas. Para chefiar a quarta e última etapa da linhas telegráficas saindo de Cuiabá, Mato Grosso ao Amazonas entre 1907 e 1915 foi escolhido o homem certo para o lugar certo: Cândido Mariano da Silva Rondon.
Membros da Comissão de Construção das Linhas Telegráficas
“ A América pode apresentar ao mundo duas realizações ciclópicas: ao norte, o canal do Panamá. Ao sul, o trabalho de Rondon científico, prático e humanitário”. Presidente Americano Theodore Roosevelt
          O Tratado de Petrópolis assinado no dia 17 de novembro de 1903 deu ao Brasil o compromisso de construir a Ferrovia Madeira-Mamoré. Em troca, anexava-se ao Brasil, as terras que hoje formam o Estado do Acre, acrescentando mais, a necessidade de se colocar a região em contato com a capital do país. Por isso, a comissão Rondon teria a missão de ligar Cuiabá a Santo Antônio do Madeira e à região do Acre. A primeira etapa dos trabalhos seria o reconhecimento, a exploração topográfica da região por onde passaria a linha telegráfica.


Rondon na região do Araguaia
“ Começa, então, aquilo que com justeza poderíamos chamar de rondonismo, verdadeira escola que surgia inspirada nos mais profundos sentimentos de justiça e humanidade” Irmãos Villas Bôas

          Para executar o reconhecimento geográfico, Rondon dividiu o projeto em três etapas. Os trabalhos de cada etapa seriam executados por expedições separadas. Sendo as etapas: primeira com a expedição que executaria o reconhecimento de Cuiabá ao rio Juruena. A segunda expedição faria o reconhecimento do rio Juruena à Serra do Norte. A terceira partiria da Serra do Norte e atingiria Santo Antônio do Madeira.
Rondon e sua família
“Esse homem deveria receber o Nobel da Paz por seu trabalho de absorção das tribos indígenas no mundo civilizado sem o uso de armas ou violência. Ele é um filantropo e um líder de primeira grandeza” Albert Einstein 
          No ano de 1907 deram início aos trabalhos. A primeira expedição saíra de Cuiabá em agosto. Além de Rondon, compunha a expedição, o Tenente João Salustiano Lira, o farmacêutico Benedito, o fotógrafo Leduc e mais 12 pessoas, entre trabalhadores e soldados do exército. No dia 02 de setembro, a expedição partiu da localidade de Diamantino e seguira em direção a Serra dos Parecis e já no dia 07 de setembro, a expedição entrara em contato com os índios Parecis que já eram civilizados.
Comissão Rondon em 1907
“ A primeiro de janeiro de 1915 inaugurei, finalmente, na Câmara Municipal de Santo Antônio do Rio Madeira a linha Telegráfica de Cuiabá a essa vila, bem como o ramal de Guajará-Mirim” Rondon
         No mês de outubro, a expedição já se encontrara em território dos índios Nhambiquaras. No dia 20 de outubro, a expedição atingira as margens do Juruena. Ali próximo, havia uma aldeia dos Nhambiquaras e Rondon resolvera fazer contato com os índios, e assim o fez, mas acabou sendo flechado pelos mesmos. Mesmo sendo hostilizado, Rondon mantem a tropa segura, e não permiti que o alto grau de tensão, pudesse levar seus comandados a cometerem um massacre. Em suma, na visão de Rondon os índios defendem sua casa, a floresta.
            As operações da primeira expedição duraram 89 dias. Durante esses dias foram feitos reconhecimentos entre as regiões de Diamantino e o rio Juruena. No dia 29 de novembro de 1907, a expedição chegou ao povoado de Diamantino e em seguida, retornou a Cuiabá.
Comissão Rondon em 1907
 “Desde de muito cedo me empolgou o problema do brasilíndio. Expulso da terra, de que era legítimo dono, pelo invasor que viera, com mostras de paz, trazer sangue, ruína e destruição” Rondon

           A segunda expedição em 1908 era composta por 127 homens, todos armados, 90 bois cargueiros, 50 burros de cargas, mais 30 de sela, 06 cavalos, 20 bois para corte. A expedição percorreu o caminho anteriormente mapeado em 1907, em seguida atravessam os sertanistas o Rio Juruena e novamente são atacados pelos índios Nhambiquaras que naturalmente defendem sua terra. Mesmo assim, Rondon ali instalou o “Destacamento Juruena”, com 62 praças, sob o comando do Tenente Ferreira. Prosseguindo os trabalhos, finalmente Rondon chegou a Serra do Norte. Ali Rondon fincou o marco de 129 quilômetros.
         De todas as expedições, a última de 1909 foi a que mais dificuldade enfrentou. A expedição se caracterizou como uma verdadeira expedição de exploração e reconhecimento. O percurso a ser reconhecido era também o mais extenso. Por ele Rondon percorreu 1.100 quilômetros via fluvial e 1.200 via terrestre. Até então no mapa do Brasil o que hoje é o Estado de Rondônia era denominado de “Terras Desconhecidas”. Essa região tratava-se do espaço situado entre a Serra do Norte e a cidade de Santo Antônio do Madeira, hoje um bairro de Porto Velho.
        Essa última etapa dos trabalhos de reconhecimento, envolvia uma região onde as características geográficas praticamente, eram inexploradas. Daí também, a necessidade de serem feitos estudos envolvendo a parte do relevo, hidrografia, fauna, flora e solo da região. Consciente das suas responsabilidades, das dificuldades a serem enfrentadas, Rondon dividiu a expedição em duas turmas e denominou de “Turma do Norte” e “Turma do Sul”.

Comissão Rondon em 1914 - Forte Príncipe
“ Os trabalhos de reconhecimento e determinações geográficas, o estudo das riquezas minerais, da constituição do solo, do clima, das florestas, dos rios, caminhariam, pari-passos, com a construção da linha telegráfica, do traçado das estradas, do lançamento de futuras cidades, da instalação das primeiras lavouras e dos primeiros núcleos de criação de gado” Rondon
        O período de construção das Linhas Telegráficas em nossa região pela Comissão Rondon ocorreu entre os anos de 1907 e 1915, sendo inaugurada oficialmente em 1° de janeiro, quando Rondon profere um grande discurso enaltecendo o Brasil, o seu povo e a integração pelos fios do telégrafo. Lembrou também do trabalho de seus comandados que encaram o grande desafio de encarar a floresta amazônica sofrendo com as doenças, ataque dos índios e outros desafios que diariamente eram apresentados aos homens que ligaram essa região da Amazônia aos centros políticos do Brasil pelos “fios da história”.     
        


Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

sábado, 11 de abril de 2015

A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA ROOSEVELT-RONDON.


Expedição Roosevelt-Rondon em 1914 - Rio da Dúvida
O Governo Federal, na gestão do presidente Rodrigues Alves, fez publicar o edital de concorrência para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no ano de 1905, ocasião em que se vislumbrou, ainda, a necessidade, de, também, construir uma linha telegráfica interligando o Rio de Janeiro, então capital da República, a localidade de Santo Antônio do Rio Madeira, sede inicial das obras da estrada, de forma a abranger toda a região oeste do país, ainda sub povoada e tida, em sua maior parte, como “desconhecida”.
Como já sabemos, construção da linha telegráfica possibilitaria a dinamização das comunicações entre os extremos territoriais, até então separados pela própria grandeza e ou outro mecanismo de acesso, possibilitando uma maior integração dos povos, com a informação de fatos, acontecimentos e interesses econômicos, bem como viabilizaria a integração de extensa região do país.
Marechal Rondon e Aluízio Pinheiro Ferreira, primeiro Governador do Território do Guaporé.
É de ressaltar-se que esta linha, quando concluída, se interligou a outra, procedente do Rio de Janeiro. Isso atendeu, igualmente, o desiderato proposto pelo próprio Rondon, sobre a necessidade de abrasileirar os brasileiros, uma vez que os interesses administrativos da jovem república estavam circunscritos apenas aos frequentadores dos palácios e adjacências, não diferenciando, neste sentido, da monarquia substituída.
Assim, quando no ano de 1907, Cândido Mariano da Silva Rondon, oficial do Corpo de Engenharia Militar, destacado por sua notável experiência na construção e manutenção de linhas telegráficas no oeste brasileiro, foi nomeado pelo Presidente da República, Afonso Pena, para chefiar a Comissão das Linhas Telegráficas e Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas, oportunamente conhecida como Comissão Rondon, especialmente criada pelo Ministério da Guerra.
Membros da Comissão Rondon em Rondônia - Anta abatida para alimentação do grupo.
A majestosa obra se desdobraria em duas partes. Uma, inicial, de reconhecimento do território a ser percorrido, que se deu então em três etapas:
1ª) A “Expedição de 1907”, partiria de Cuiabá indo até o ponto em que alcançaria rio Juruena. Tarefa que resultou concluída em 20 de outubro de 1907;
2a) A “Expedição de 1908”, partiria do rio Juruena, que se deu em 20 de julho de 1908, com o objetivo de atingir a Serra do Norte e
3a) A “Expedição de 1909”, que foi dividida em duas: – uma chamada “Turma do Norte”, que teria como incumbência sair de Santo Antônio do Rio Madeira e subir até as cabeceiras do rio Jaci-Paraná, onde estacionaria aguardando a chegada da outra, a “Turma do Sul”, que chefiada pelo próprio Rondon partiria da Serra do Norte em direção às cabeceiras do aludido rio. Foi, entretanto, no ano de 1909, que a terceira expedição Rondon partiu do Juruena e varou inteiramente a mesopotâmia que se acha entre ele e o Madeira.
A cartografia mais atualizada registrava a área como “desconhecida”[1], porquanto apenas o caminho das águas e suas adjacências eram conhecidos de longa data.
Estação Telegráfica Alvaro Vilhena inaugurada em 1911 - Vilhena - RO
Novos cursos d’água foram descobertos, entretanto, “Nenhum rio suscitou duvidas tão numerosas e duradoiras, como o correspondente á nascente que descobrimos no dia 16 de julho de 1909 (Expedição de 1909), no parallelo de 12º39’ Sul, e á qual demos então o nome de cabeceira do Urú.
“Da coluna exploradora fazíamos parte eu, os tenentes Lyra e Amarante, e o dr. Miranda Ribeiro, zoologo do Museu Nacional. A alguns de nós parecia que as águas dessa cabeceira corriam para o Guaporé; outros opinavam que ellas seriam do Madeira. O problema que assim surgiu, merecia ser estudado e resolvido, não só pelo interesse que nos despertava no ponto de vista potamographico, como tambem  pelo que se ligava ao prosseguimento dos trabalhos relativo ao traçado da linha telegraphica.”³
“... Mas no dia 26, quando já reunida a minha turma com a do tenente Lyra, voltamos para o Oriente, deparou-se-nos um riacho da largura de 12 metros, correndo na direção N. N. O.
Novas controvérsias surgiram: d’onde provinha este riacho? Da nascente a que déramos o nome de Urú ou do Toloiry-inazá?
Como não fosse possivel, na ocasião, accordar as duas opiniões, resolvi assignalar aquellas águas com o nome de “Duvida”, porque para mim, eram ellas as mesmas que nos acabavam de crear tantos embaraços na discriminação das bacias do Madeira e do Guaporé.” [2]
Todavia, em face do volume de trabalho a ser executado na edificação da futura linha telegráfica e a escassez de tempo, recursos e material humano, o levantamento do aludido rio ficou postergado para oportunidade futura.
Roosevelt e Rondon em 1914 - Expedição em Rondônia
Theodore Roosevelt foi, além de militar, o 26° presidente dos Estados Unidos, tendo governado entre 1901 e 1909. Assim que deixou a Casa Branca, participou de um safári de quase um ano na África, ao lado do filho, Kermit. Em, depois de ter perdido as eleições do ano anterior, resolveu se votar novamente a seu espírito aventureiro. Assim, em dezembro daquele ano se formaria a Expedição Científica Roosevelt-Rondon – que ganhou esse nome depois que Cândido Rondon, desde 1907 envolvido com ocupação da selva amazônica através da implantação de linhas de telégrafo, exigiu que a expedição tivesse o objetivo científico de navegar e mapear o rio da Dúvida, descoberto por ele mesmo alguns anos antes na Amazônia. Por isso, posteriormente o Rio da Dúvida foi rebatizado de Rio Roosevelt logo após a expedição – que não foi fácil e animada como o safári africano, muito longe disso. “O mito da benfazeja natureza não pode ser aplicado à crueldade da vida nos trópicos”, escreveu Roosevelt em seu diário. Ele e seu filho Kermit contraíram malária, passaram fome e tiveram de enfrentar longos dias sobre o lombo de burros ou, pior, em canoas que brigavam com as pedras e correntezas do rio da Dúvida. O ex-presidente americano perdeu 30 quilos em cinco meses de privações, que resultaram no livro “Nas selvas do Brasil”, escrito por Roosevelt e dedicado, por ele, a Rondon.
De outra parte, desde o ano de 1908, quando Roosevelt concluíra seu mandado presidencial, Father Zahm, seu amigo e companheiro de leitura de Dante, sugerira ao mesmo a possibilidade de promover uma excursão à América do Sul. Entretanto, ele estava ainda empenhado, a realizar uma viagem ao continente africano, sua vinda à América, como proposto por Zahm, haveria de aguardar futura ocasião.
Expedição no Rio da Dúvida, hoje nomeado como Rio Roosevelt em Rondônia
Posteriormente, em 1913, ao aceitar convites das repúblicas Argentina e Brasileira para fazer conferencias, Theodore Roosevelt, deliberou que, ao final destas percorreria o sertão até o Amazonas, atendendo a indicação do amigo, com o fito de estudar a fauna da região tempo em que coletaria exemplares destinados a enriquecer o acervo do American Museum of Natural History de New York.
O museu preocupado não somente com o êxito da expedição, uma vez que eventual fracasso poderia comprometer-lhe a reputação, mas também com a segurança pessoal do ex-presidente dos Estados Unidos e demais membros da comitiva, cogitava de encontrar alguém que efetivamente conhecesse a região, para acompanhá-los, oferecendo o suporte necessário.
Domício da Gama, embaixador brasileiro nos Estados Unidos, prontificou-se a viabilizar ajuda para o transporte das cinco toneladas de bagagens e dos pesados barcos que acompanhavam a comitiva do Rio Paraguai até o local inicial da expedição.
Rondon teria salvo a vida do ex-presidente americano em Rondônia
Além do indispensável auxílio, o embaixador, ofereceu ao ex-presidente Roosevelt o mais valoroso guia, o então Coronel Rondon, comandante das Linhas Estratégicas e Telegráficas de Mato Grosso ao Amazonas, que na ocasião contava com 48 anos de idade, que deveria escudá-lo no percurso a ser empreendido.
Rondon, assoberbado que estava na edificação da Linha Telegráfica, encontrava-se na estação Barão de Melgaço, nas imediações de Pimenta Bueno, quando, a 04 de outubro, recebeu telegramas do ministro da Guerra, Viação e Exterior sobre a indicação de seu nome para organizar a comissão que deveria acompanhar o Sr. Roosevelt, na viagem que o mesmo pretendia encetar pelo interior do país.
Em face das inúmeras providencias que deveria adotar, diante da nova incumbência, rumou para o rio de Janeiro e a 11 de novembro apresentou-se aos Ministros indicando que aceitaria o encargo de acompanhar ilustre visitante “... sob a condição de que a expedição não circunscreveria sua atividade a uma expedição com episódios cinegéticos ...”.[3]  Em consequência do que resultou aprovado o plano de organização da “Expedição Científica Roosevelt-Rondon”, na proposta de serem realizados estudos geográficos e de história natural.
Propôs, ainda, Rondon, que “De todos os caminhos a seguir, parecia-me preferível tomar pelos rios Arinos, Juruena, Papagaio e Dúvida. ... Mandei, entretanto, preparar, em nossa seção de desenho, cartas de cinco itinerários, para que o Itamarati os submetesse à apreciação de nosso ilustre hóspede – escolheu ele o que maior número de dificuldades e imprevistos oferecia: o do rio da Dúvida.” [4]
Os desbravadores das Américas - Roosevelt e Rondon.
Assim, a 12 de dezembro de 1913, Rondon foi aguardar a chegada de Theodore Roosevelt, que vinha transportado pela canhoneira paraguaia, subindo o rio Paraguai, na Barra do Rio Apa.
Depois do cumprimento das devidas formalidades, seguiram rio acima, até alcançarem a estação Tapirapuã e dali demandaram em marcha por mais 650 quilômetros cruzando vastas extensões de cerrados e matas densas até alcançarem a margem do rio que resultaria percorrido.
Somente a 27 de fevereiro de 2014 iniciou-se a descida pelo rio da Dúvida, tendo como ponto inicial 12° 1’ da latitude Sul e 17° 7’ 34’’ de longitude Leste do Rio de Janeiro, nas imediações da Estação José Bonifácio, em direção ao Norte.
Parte da mesma expedição, composta pelo Capitão Amílcar, Eusébio Oliveira e Miller marchariam até alcançar o rio Comemoração de Floriano que, na sua confluência com o Pimenta Bueno, formam o Ji-Paraná, desceriam este e continuariam pelo Madeira, até Manaus.
Cogita Rondon no sentido de que “Poderíamos estar daí a uma semana no Gi-Paraná, daí a seis no Madeira ou daí a três meses, não se sabe onde – Era o rio da Dúvida.” [5]
O rio da Dúvida, que a linha telegráfica havia transposto quando trafegava de Juruena em direção a Vilhena, era tido, até então, como afluente da margem direita do rio Comemoração de Floriano (Barão de Melgaço), até que em 1913 o Tte. Amarante, depois de proceder meticuloso levantamento no Rio Comemoração de Floriano, concluiu que tal hipótese era absolutamente infundada.
Logo, a dúvida pendente sobre rio da Dúvida, se alargava. Com isso, o próprio Rondon, a partir daí, formulou a hipótese de que o rio da Dúvida só poderia ser a parte superior de um rio conhecido pela sua foz com o rio Madeira, sob o nome de Aripuanã. O que se evidenciou, oportunamente, ao final da própria expedição, estar ele acobertado de razão no tocante a possibilidade anteriormente apresentada.
A importante expedição científica iria perdurar até o final do mês de abril do ano de 1914. Ao longo de 59 dias foram percorridos 686.360 metros e os componentes da valorosa expedição estavam debilitados pelo cansaço e inúmeras doenças.
No dia 26 de abril os desbravadores encontraram o Tenente Pirineus que, há mais de um mês, os aguardava com suprimentos e um barco a vapor que os levariam em demanda a Manaus.
Em 27 de abril, resultou inaugurada uma placa, salientando, na leitura da Ordem do ia, que “... o rio cuja parte superior tinha chamado rio da Dúvida, nos mapas da comissão, a grande parte desconhecida que acabávamos de percorrer, o rio que os seringueiros chamavam Castanho e o Baixo Aripuanã eram todos um só e grande rio, com 1.409 quilômetros 174 metros, avançando uniformemente, sem deflexão. E que, por ordem do Governo Brasileiro, esse rio, o maior afluente do rio Madeira, com suas nascentes a 13° e sua foz a 5° de latitude Sul, inteiramente desconhecido dos cartógrafos e até, em grande parte, das próprias tribos locais, tinha recebido o nome de rio Roosevelt.” [6] 
No amanhecer do dia 30 de abril chegavam à Manaus, onde Roosevelt recebeu cuidados médicos antes de prosseguir à Belém, de onde retornaria a sua pátria.
Além da descoberta de um novo rio em Rondônia, foram recolhidos inúmeros materiais de cunho científico para ambas nações, e muitos outros foram os resultados da expedição, entre elas: Roosevelt acabou por descrever a viagem na obra  “Through the Brazilian Wilderness”, sem contar o reconhecimento da região sobretudo a fauna, flora e geografia que contribuíram para as necessárias atualizações cartográficas, sem contar que a expedição SEM CONTAR .

Autores
Aleks Palitot - Historiador
Roque Lorenzon - Especialista em História Regional


[1] Cartas da Província de Mato Grosso. F. A. Pimenta Bueno. 1880.

[2] MAGALHÃES, Amilcar A. Botelho – Pelos Sertões do Brasil. Ed. Globo, Porto Alegre, 1930.  pg. 170.

[3] VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010.

[4] VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010. Pág. 373

[5] VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010. Pág. 377.

[6] VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010. Pág. 407.

domingo, 8 de março de 2015

OS EXPLORADORES DA AMAZÔNIA

PRIMEIRAS EXPEDIÇÕES NA AMAZÔNIA

         
Exploradores Europeus - Brasil - 1570 
Na época dos grandes descobrimentos, a Região Norte foi explorada por espanhóis, franceses, holandeses e ingleses. Os portugueses só chegaram a essa região no início do século XVII. Fundaram fortes ou se apropriaram de outros que já existiam no local e expulsaram os estrangeiros.
         De acordo com o Tratado de Tordesilhas (1494), a maior parte do território que hoje representa a região Norte pertencia à Espanha. Apenas uma pequena parte, próxima ao Oriente, era possessão de Portugal. Para compreendermos melhor a história desse período, vamos analisar as expedições pioneiras à região.
         A partir da expedição de Vicente Yañes Pinzón (1500), descobridor da foz do Rio Amazonas, até por volta de 1570, cerca de 24 expedições espanholas tentaram penetrar na Amazônia. Duas delas, a de Francisco de Orellana, em 1542, e a de Pedro de Ursua e Lopo de Aguirre, em 1560 – 1561, percorreram totalmente a calha do Solimões – Amazonas. Antes dessas expedições, entretanto, houve uma que percorreu o Solimões até próximo da região entre rios Tefé e Coari (Província de Machifaro): trata-se de um desdobramento da malograda expedição de Alonso Mercadillo, que partiu do Peru, em 1537, rumo à região dos índios chupacho e iscaicinga, nas vertentes orientais dos Andes. Diogo Nunes, um mameluco português, participou dessa expedição. Ele passou sua vida no Brasil e registrou as primeiras notícias sobre esse território na “Carta de Diogo Nunes a D. João III”, rei de Portugal.

EXPEDIÇÃO DE FRANCISCO ORELLANA

         Os espanhóis, depois de conquistarem o Peru (1532) com a ajuda das tropas de Francisco Pizarro, interessaram-se por notícias a respeito de duas regiões fabulosas: o El Dorado e o País da Canela, que se transformaram-se em símbolos da utopia americana, mas nunca foram precisamente localizadas. A procura por esses paraísos do ouro e das especiarias propiciaram a exploração do noroeste da América do Sul e da Bacia Amazônica.
Explorador Francisco Orellana
          A expedição de Orellana foi, na verdade, uma subexpedição, pois tratava-se de um desdobramento da expedição de Gonçalo Pizzaro – governador da Província de Quito e irmão do conquistador do Império Inca (Peru). Orellana tinha por objetivo encontrar outra forma de produzir especiarias para competir com os portugueses que monopolizavam o mercado europeu de produtos exóticos, oriundos das Índias orientais. Os espanhóis esforçaram-se em descobrir o caminho oriental para as Índias. Porém, malsucedidos, ambicionaram suprirem-se das especiarias da América do Sul.
          A expedição de Francisco Orellana partiu de Cuzco, passando por Quito – de onde saiu em fevereiro de 1541, com cerca de 220 espanhóis a cavalo e quase 4 mil índios – apenas com base em algumas informações sobre a existência do País de Canela e do El Dorado. Lá chegando, comprovou que existia somente pequenas árvores de canela e algumas montanhas ásperas e inabitáveis. Gonçalo Pizzaro, depois da frustação, decidiu prosseguir caminho com destino à Lagoa do El Dorado, mas surgiu um problema: a falta de alimentos para os expedicionários.
Explorador Francisco Orellana
        Para resolver esse problema, Pizzaro encarregou o tenente Francisco de Orellana a prosseguir viagem pelo Rio Coca, com cerca de 60 homens, um bergantim e algumas canoas, à procura de mantimentos, enquanto grande parte da tropa esperava na região de Zumaco.
        Francisco de Orellana, ao descer o Rio Napo, à procura de povoações indígenas para suprir-se de mantimentos, percebeu que seus comandados não teriam mais condições físicas de retornar ao acampamento de Pizarro. Então, deu início a uma aventura que durou 8 meses, em que foram navegados 6 mil km pelo Solimões – Amazonas, chegando ao Atlântico, em 24 de agosto de 1542. Essa aventura foi mencionada na famosa crônica de frei Gaspar de Carvajal.
        Gonçalo Pizarro continuou a procurar o El Dorado, em vão. Abandonado pelos índios, sem suprimentos e com apenas 80 homens, regressou a Quito, em julho de 1542. Em setembro desse mesmo ano, enviou uma carta ao imperador Carlos V, relatando seu fracasso e a “traição do zarolho Orellana”. 
       Francisco de Orellana, um ano e cinco meses após ter deixado Pizarro esperando por abastecimento, retornou à Espanha, onde relatou ao imperador, em maio de 1543, sua aventura pela Amazônia. Nessa ocasião defendeu-se da acusação de ter abandonado os membros da expedição de Pizarro.
       O imperador Carlos V, como prêmio pela nova conquista, concedeu a Francisco de Orellana, em 13 de fevereiro de 1544, o título de Adelantado; governador y capitán-general de Nova Andaluzia, isto é, o direito de colonizar a Amazônia, mas com recursos próprios.
         Ao final de 1545, Francisco Orellana retornou à sua possessão, partindo da Espanha com quatro navios, sendo que dois deles foram perdidos durante a viagem. Supõe-se que Orellana confundiu-se com as “bocas” dos rios Pará e Amazonas, fato que contribuiu para ele penetrasse num labirinto de ilhas, canais e furos do Pará ou do Amazonas. O adelantado Francisco Orellana morreu em novembro de 1546, na Amazônia, sem exercer de fato os poderes a ele concedidos pela Coroa Espanhola.

       
EXPEDIÇÃO DE URSUA E AGUIRRE


          As notícias que chegaram a Lima, através dos sobreviventes da expedição de Francisco Orellana, reavivaram a crença já existente que existiam países ricos perdidos nas florestas equatoriais: o El Dorado, o Lago de Paititi, a Gran Omágua, o País das Esmeraldas. Nos anos seguintes, diversas expedições percorreram a vertente oriental dos Andes à procura desses locais; a mais famosa, não pelo resultado, mas pelos dramas humanos que envolveu, foi a de Ursua e Aguirre, em 1660-61, que desceu o Marañon e todo o Amazonas até o Atlântico.
Estátua de Francisco Orellana
         O vice-rei do Peru, Andrés Hurtado de Mendoza, organizou uma expedição denominada “Jornada ao Dorado e aos Omáguas,” sob o comando do general Pedro de Ursua  que partiu de Lima em fevereiro de 1559, mas alcançou o Marañon somente em setembro de 1560.
         Durante a viagem, Pedro de Ursua foi assassinado em consequência de desentendimentos com a tripulação. Depois da tragédia, os marañones, com eram chamados os expedicionários, liderados por Lopo Aguirre, desligaram a Amazônia do domínio espanhol e aclamaram D. Fernando de Guzmán príncipe do Peru. Ocorreram outros assassinatos em virtude da disputa pelo comando até a expedição chegar à Venezuela, onde o próprio Lopo Aguirre foi morto, esquartejado e exposto e via pública.
         O fracasso dessa expedição e a descoberta de prata na região de Potosi levaram os espanhóis a abandonar a busca por ouro e, durante mais de setenta anos, se desinteressarem pela Amazônia. Nesse meio tempo, com a União Ibérica, os portugueses iniciaram um processo de penetração incessante na região.


A UNIÃO IBÉRICA E A CONQUISTA LUSITANIA DA AMAZÔNIA


          A morte do Rei de Portugal, D. Sebastião em 1578, e a de seu sucessor em 1580, o cardeal D. Henrique, desencadeou uma crise de sucessão dinástica, pois nenhum dos referidos monarcas deixou sucessores diretos. Entretanto, em virtude do parentesco entre as casas reais, Filipe II, rei da Espanha, assumiu o trono Português unificando as coroas Ibéricas.
          Apesar da unificação das coroas, Filipe II, através do Juramento de Tomar (1581), assumiu uma série de compromissos com Portugal com o objetivo de mantê-lo autônomo. Dessa forma, a administração pública e todos os cargos superiores e os de segundo escalão do reino deveriam ser providos por portugueses; a língua portuguesa seria respeitada e as leis, usos e costumes dos portugueses seriam mantidos. Quanto aos domínios ultramarinos, o controle do comércio e suas colônias e respectivas guarnições militares continuariam sob o domínio português. Portugal, portanto, não perderia suas características próprias.
Ocupação colonial na Amazônia
          O Tratado de Tordesilhas e seus efeitos perdem sentido com a unificação das Coroas. Expedições como as Entradas e as Bandeiras foram fundamentais a partir de então, para a conquista lusitana de parte da região. A conquista da Amazônia teve início nas primeiras décadas do século XVII, quando os portugueses foram autorizados pelo rei Filipe II a construir uma base militar com o objetivo de expulsar os “estrangeiros” que promoviam constantes incursões na região entre o delta do Rio Amazonas e o Rio Xingu.
          Em função desse fato, a região passou a fazer parte da história de Portugal, mais de um século depois que os portugueses chegaram ao Brasil. Entretanto, esses acontecimentos tiveram como motivação outros objetivos, que levaram à colonização da costa leste brasileira.
          A região do Amapá foi efetivamente explorada, em conjunto com Portugal e Espanha, a partir da União Ibérica. O território que até então era conhecido pelo nome de “Costa do Cabo Norte” também era alvo do interesse de holandeses, franceses e ingleses. Dessa região extraíam madeira, resinas, frutos e corantes, como urucum e óleos vegetais, além de produtos provenientes da pesca, como o peixe-boi, que era salgado e exportado para a Europa.
            A exploração dessas riquezas era feita por uma companhia inglesa e outra holandesa, fundadas para esse fim específico. Nessa época, teve início o plantio de fumo e de cana-de-açúcar e também a criação de gado bovino. O primeiro Tratado de Utrecht, em 1713, garantiu a Portugal a posse do território. Esse tratado, no entanto, não arrefeceu os interesses dos estrangeiros pela região, especialmente dos franceses. A questão foi definitivamente resolvida por meio da sentença proferida pelo conselheiro federal da Confederação Helvética (Suíça), Edouard Muller, em 1° de dezembro de 1900.
           Nessa época, a Amazônia significava apenas um problema militar para os portugueses porque o Delta Amazônico há tempo era ocupado por ingleses e holandeses, que iniciaram a montagem de feitorias e de fortificações para garantir a exploração econômica da região.
          Os franceses, já instalados em Caiena, alcançaram o Maranhão, onde fundaram São Luís, em 1612. Além disso, a região constituía-se num domínio ambíguo, uma vez que Portugal fazia parte da União Ibérica (1580-1640).


OCUPAÇÃO MILITAR: O FORTE PRESÉPIO


         O capitão Alexandre de Moura, comandante das tropas portuguesas sediadas em São Luís, no Maranhão, depois de vencer e expulsar os franceses ali estabelecidos desde 1612, determinou o prosseguimento da conquista até o Amazonas. Para tal jornada, entregou ao capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco o comando de uma frota composta por três navios tripulados por 150 soldados que, partindo no dia 25 de dezembro de 1615, chegou ao local da futura cidade de Belém, em 12 de janeiro do ano seguinte.
Forte Presépio em Belém - Pará
         O contingente militar português desembarcou na Amazônia em 1616, sem a oposição dos nativos que viviam no local há muitos anos. Porém, Castelo Branco tratou logo de construir uma pequena “praça de armas” . Essa edificação de madeira recebeu o nome de Forte do Presépio, que tinha como principal objetivo manter a possessão setentrional para Portugal. Esse fato, à luz da documentação da época, foi discutível.
         O clima de tranquilidade, porém, foi logo quebrado em virtude de fatores de diversas naturezas: conflitos com os índios tupinambás; incidentes internos no seio do próprio núcleo colonial nascente; e , principalmente, pelas batalhas com outros povos estrangeiros.
Forte Presépio em Belém - Pará
          Nesse primeiro momento de sua história ocidental, a Amazônia foi transformada numa área predominantemente militar e geopolítica, considerada pouco aproveitável economicamente. Apesar disso, a região motivada, além da simples ocupação militar, uma oportunidade de colonização por parte dos portugueses. A sua imensa população nativa e seus recursos naturais ofereciam boa perspectiva de desenvolvimento, bem como novas oportunidades para colonos que achavam poucas chances de sucesso nas capitanias açucareiras.


EXPEDIÇÃO DE PEDRO TEIXEIRA


           Em virtude da União Ibérica, os portugueses que estavam na porção propriamente dita de Portugal receberam ordens régias para conquistar o território a oeste da Amazônia, que correspondia à posse espanhola. Porém, em função de alguns contratempos, eles ainda não haviam cumprido as determinações reais quando a expedição dos irmãos leigos, esta, que seria um resto da fracassada Expedição de Juan Palácios, que havia partido de Quito para o território dos Índios Encabelados, nos rios Napo e Aguarico, e chegara ao Forte Gurupá, em 5 de fevereiro de 1637. Esta era liderada por Domingos de Brieda e Toledo, frades franciscanos espanhóis. De Gurupá seguiu para Belém e, em seguida, para São Luís, onde os religiosos relataram a odisseia ao governador e ao capitão-geral do Estado do Maranhão – Jácome Raimundo de Noronha. Este entendeu o episódio como possibilidade de se legitimar no cargo, uma vez que o ocupava sem nomeação real.
Expedição de Pedro Teixeira 
          Jácome de Noronha enfrentou adversidades políticas locais para empreender a famosa expedição de Pedro Teixeira. Composta por 47 canoas, 70 portugueses, cerca de dois mil índios remeiros e flecheiros e tendo como guias Brieda e Toledo, a expedição saiu de São Luís em julho, rumo a Belém e, posteriormente, para Cametá, de onde partiu em 26 de outubro de 1637.
          Passara-se doze meses para a expedição chegar à Real Audiência de Quito, no Vice-Reino do Peru, onde foi recebida com festas, corridas de cavalos e touradas, promovidas pela população e pelas autoridades local. Em 10 de novembro de 1638, o presidente da audiência informou ao vice-rei, Luiz Jerônimo Fernandes Cabrera, em Lima, da chegada dos portugueses. Cabrera, depois de ouvir as autoridades da capital, ordenou que os expedicionários retornassem imediatamente a Belém. Foram escolhidos os padres jesuítas Cristóbal de Acuña e Andrés de Artieda, juntamente com o frei Afonso de Armejo, frei Diogo da Conceição, João Mercê e Pedro de la Rue.
         Quando a expedição subia o Rio Napo, Pedro Teixeira ordenou que Pedro da Costa Favela permanecesse no local com a maior parte da tropa, onde provavelmente o capitão Juan Palácio havia sido morto pelos encabelados. Depois de um período amigável, índios e portugueses entraram em choque; a tropa de Favela assassinou todos os índios que pôde e incendiou seus aldeamentos. O massacre dos encabelados se completou com a chegada de Pedro Teixeira ao local, quando voltava a Quito.

         
         RETORNO DA EXPEDIÇÃO


          No retorno da expedição, Pedro Teixeira tomou posse solenemente daquelas terras de domínio espanhol para a Coroa portuguesa, em 16 de agosto de 1639. Ali fundou Franciscana – povoação que posteriormente servirá de marco para domínio de Portugal e da Espanha na América. Desse modo, Pedro Teixeira cumpria as ordens do governador do Estado do Maranhão.
       A expedição chegou a Belém dez meses depois, em 12 de dezembro de 1639, deixando os missionários mercedários, enquanto Pedro Teixeira e os jesuítas seguiram rumo a São Luís. Estava no governo do Estado o capitão-geral Bento Maciel Parente. Seu antecessor, Jácome Raimundo de Noronha, tinha sido mandado preso para Portugal.
        O padre Cristóbal de Acuña partiu de São Luís para Madri, onde relatou ao Conselho das Índias, os fatos ocorridos durante a viagem e enumerou as vantagens e a necessidade de se colonizar a Amazônia.


FORTIFICAÇÕES E DEFESA DO TERRITÓRIO


           A construção de uma rede de fortificações é outro dado importante para compreender a ocupação da Amazônia e que sugere a ocorrência de conflitos pela posse das terras. Esses estabelecimentos, além dos objetivos militares, propriamente ditos, também serviriam para proteger os missionários dos ataques indígenas e de apoio logístico a expedições destinadas à coleta das drogas do sertão e da captura de índios.
          A estruturação militar do corpo de trabalhadores estabelecia patentes entre seus membros, tais como: praças, cabos, sargentos, capitães-do-mato, dentre outros. Assim, todos os índios aldeados na Amazônia deveriam se alistar nesse corpo de trabalhadores. A exceção existia para aqueles que estavam à disposição direta do serviço real, para os quais eram construídos currais especiais.
Forte Presépio em Belém - Pará
       Durante os últimos anos colonialista no Brasil, a política voltada para os índios foi elaborada através de sucessivas cartas régias, ao mesmo tempo em que progressivamente, essa política tomava forma mais violenta e devastadora para com os povos indígenas, sobretudo após a chegada da família real ao Brasil.

Aleks Palitot
Historiador

domingo, 1 de março de 2015

GETÚLIO VARGAS EM PORTO VELHO – 75 ANOS DE UMA VISITA QUE MUDOU NOSSA HISTÓRIA

Getúlio Vargas desembarcando em Porto Velho no Rio Madeira em 1940
A “Marcha para o Oeste” idealizada em 1938 pelo governo brasileiro e ampliada nos anos posteriores, tinha como fator a imagem da Nação no sentimento dos brasileiros. Essa idéia, como frisou Alcir Lenharo, era difundir tal imagem com base no ideal de uma nova ordem, em que a política passasse a ser entendida como ato amoroso a envolver, reciprocamente, governantes e governados.
O ideário do Estado Novo de Getúlio Vargas, calçado na força da ação do governo e modelado pelos intelectuais arregimentados para divulgar a fundamentação do discurso do seu governante, propunha mostrar aos brasileiros um retrato da Nação em movimento, visando a transformação das fronteiras políticas do Sul, Oeste e Norte em fronteiras econômicas.
Getúlio Vargas ladeado pelas damas de Porto Velho - 1940
Nesse período Rondônia não existia, a economia da região estava resumida a coleta de látex, funcionamento da Estrada de Ferro, Colônias Agrícolas criadas por Aluízio Pinheiro Ferreira e a movimentação de navios pelo Madeira, Mamoré e Guaporé. Porto Velho ainda era município do Amazonas, e do Mato Grosso era Guajará-Mirim e esta, por exemplo, progredia sem contar com investimentos de infraestrutura na sua área urbana. Os benefícios que vinha recebendo provinham da ferrovia que tinha ali sua estação terminal. A sociedade local, em 1937, demonstrando o descontentamento que sentia pela omissão do governo estadual aos seus problemas, endereçou ao presidente da República um abaixo-assinado pedindo a criação de um território federal naquela fronteira.
Getúlio Vargas no barranco do Madeira ao lado do Major Aluízio Ferreira
A população de Porto Velho alimentava a mesma mágoa pelo abandono que sofria do Estado do Amazonas. “Longe do Mato Grosso, longe do Amazonas, eles se sentiam desamparados por ambos e muitas vezes tributados duplamente pelos dois Estados.
Vargas então alimenta um discurso que induz essa região aparentar ilhas e espaços vazios do arquipélago, configurava o Brasil e suas distorções entre Norte – despovoado, subdesenvolvido, marginalizado por contingências de sua grandeza e de sua distância dos centros de decisão – e o Sul, em franco desenvolvimento, populoso e industrializado.

VISITA A PORTO VELHO - 1940  

Getúlio Vargas iniciada uma jornada pela Amazônia que se iniciara em Belém em 6 de outubro de 1940, que se segue por Manaus até dia 10 do mesmo mês. Quando então ele decide conhecer a região de Porto Velho no dia 11 de outubro e pelo previsto permaneceria aqui apenas três horas, e no final das contas por aqui ficou três dias.
Desfile estudantil - Colégio Maria Auxiliadora - 1940
Aluízio Pinheiro Ferreira então chefe do Pelotão de Fronteiras da região e Diretor da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, havia preparado toda a cidade de Porto Velho para receber o presidente. A idéia era convencer Getúlio permanecer por mais dois dias, e convencer o mesmo, da criação do Território Federal do Guaporé, hoje Rondônia. Getúlio foi muito bem recepcionado pela população, povo este que se preparou com inúmeros ensaios de paradas militares e desfiles para impressionar o líder do Estado Novo. Porto Velho naquela oportunidade possuía uma população de 5 mil habitantes, ainda com ares provincianos e beradeiro, isso encantou e motivou Getúlio, ao perceber o empenho do povo em lhe receber, assim, o mesmo permanece em nossa cidade, e segundo a historiadora Yeda Borcacov, o mesmo teria pedido uma rede para dormir na casa sede do Administrado da Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
Getúlio Vargas visita um castanhal em Porto Velho em 1940.
Getúlio chegou aqui em Porto Velho através de um hidroavião, que pousou no Rio Madeira defronte a cidade próximo ao complexo da ferrovia. Nos dias que se seguiram, o presidente foi cortejado com vários eventos na agenda oficial. Logo que chegou, houve um desfile em sua homenagem, 700 estudantes dos colégios Dom Bosco, Maria Auxiliadora e Barão Solimões.
Trabalhadores da Estrada de Ferro em desfile para Getúlio - 1940
Também desfilaram grupamentos militares da fronteira, composição de máquinas rodoviárias manejadas por tratoristas da cidade, 400 homens das turmas de conservação das estradas de ferro e de rodagem e os operários das oficinas da ferrovia, guiados por feitores e mestres-de-obra empunhando com garbo os seus instrumentos de trabalho. Depois do desfile o presidente da República inaugurou a Usina de Eletricidade e o edifício dos Correios e Telégrafos, sem pressa, pois resolvera prolongar ali sua permanência.
Getúlio inaugurando uma Termoelétrica em Porto Velho - 1940
A permanência do presidente durante três dias em Porto Velho serviu para assentar as bases da criação de um território federal nas áreas dos municípios de Porto Velho e Guajará-Mirim. Ele deixou ali, na sua despedida, como lembrança, uma frase que se tronou o lema da cidade:

“Em Porto Velho cada soldado é um operário e cada operário um soldado com o objetivo comum de trabalhar pelo engrandecimento da Pátria”
Inauguração dos Correios de Porto Velho por Vargas em 1940
Os efeitos da visita do presidente Getúlio Vargas em Porto Velho passaram a ser sentidos por causa dos aumentos de recursos concedidos à Estrada de Ferro Madeira Mamoré pelo Ministério da Viação e Obras Públicas, para aplicação em construções de infraestrutura em Rondônia. Vargas envia verbas com valores significativos para a construção de várias edificações, como a finalização do Bairro Caiari, sede da Administração da Estrada de Ferro (Prédio do Relógio), Palácio do Governo do Território, Hotel Porto Velho (Unir Centro) e finalização do Mercado Municipal (Mercado Cultural).
Vargas se despede de Porto Velho no dia 13 de outubro de 1940
O primeiro governador do Território Federal do Guaporé (Rondônia) foi o major Aluizio Pinheiro Ferreira, convidado para exercer aquela função pelo presidente Getúlio Vargas na manhã de 13 de setembro de 1943, no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, quando lhe foi comunicado que naquela data foi criada uma nova unidade federada no sertão rondoniano. A posse do governante ocorreu a 24 de novembro de 1943, no Salão Nobre do Ministério do Interior e Justiça, no Rio de Janeiro, e a solenidade de instalação do cargo foi efetuada em Porto Velho, no Grupo Escolar Barão Solimões, a 24 de janeiro do ano seguinte.


Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87 
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098