sábado, 28 de fevereiro de 2015

FEB - SOLDADOS DE BORRACHA - SEGUNDA GUERRA

                      
Símbolo da FEB era uma cobra fumando - 1944
            ANALISANDO OS FATOS
            Interrogar o passado significa, acima de tudo, ampliar os horizontes para a construção de uma nova história.  Num acontecimento histórico marcante, atuam inúmeros agentes, sob diferentes prismas, cada qual contribuindo, a seu modo, para que o fato ultrapasse a circunstancialidade e venha a integrar a vida dos povos e das nações.  A pesquisa, o debate, o confronto de opiniões, são elementos imprescindíveis para que o resgate dos eventos históricos se realize em toda a sua plenitude.  Com isso, evita-se o artifício da redução simplista dos acontecimentos, retirando o ato de contar do âmbito passional e transportando-o para o espaço da análise histórica, para assim, não ficar apenas com a memória nacional formatada pelo Estado, mas para também se refletir sobre a memória subterrânea, analisando cautelosamente o discurso oposto, abrangendo as duas faces da história.
            Essas considerações são válidas também para os importantes episódios que transformaram em História a presença das Forças Expedicionárias Brasileiras na Segunda Guerra Mundial.  Contudo, os "pracinhas", assim chamados pela população da época, conseguiram, um importante destaque nas batalhas, onde desempenharam suas funções no front. Por isso, sabendo-se de algumas importantes vitórias da FEB na Itália, como por exemplo Montese e Monte Castello, é que se quer revelar novas faces desses acontecimentos, ampliar o universo de reflexões, lançando luzes sobre aspectos antes não estudados.  Tenta-se revelar como era o cotidiano destes combatentes, brasileiros tidos como heróis, lançados sem treinamento e sem preparo numa guerra cujo sentido e alcance muitos deles nunca entenderam.
Soldados da FEB ocupando a região de Montese na Itália
            O interesse em realizar esse tipo de estudo surgiu por sua relevante contribuição para o conhecimento, pois, este período, que compreende, no Brasil, o Governo de Getúlio Vargas e a 2ª Guerra Mundial, ainda é motivo de ampliar novas reflexões sobre tais acontecimentos, revelando novas faces daquele período da história do mundo.  Há um interesse pessoal em revelar as dificuldades e o cotidiano destes homens na 2ª Guerra, e observar a contradição entre os elogios públicos feitos pelo governo brasileiro e as severas críticas redigidas por oficiais americanos encarregados de acompanhar os pracinhas. O título do artigo Soldado de Borracha, vem das histórias contadas pelo meu avô, que quando era soldado da borracha ou seja, responsável pela coleta do látex para a fabricação da mesma, dizia que naquele tempo também trabalhava como um soldado, devendo conseguir nos seringais o necessário para o fornecimento da matéria prima para a guerra, pois sabia, que parte da borracha era destinada para o revestimento de algumas armas e transportes de guerra.  Por isso, para ele, os que foram para a guerra eram soldados de borracha, ele: o da borracha.

A PARTICIPAÇÃO DO BRASIL
            
Soldados Brasileiros na ocupação de Monte Castelo na Itália
         Sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, através da Força Expedicionária Brasileira – FEB e da FAB, não deixou de ser uma verdadeira epopéia – soldados brasileiros enfrentando calejadas tropas alemãs, sob um particularmente gélido inverno nas alturas dos Apeninos Tosco - Emilianos[1] - são visíveis tanto o desinteresse como o desconhecimento acerca do tema – um dos motivos que justificaram a pesquisa sobre o assunto.  Ainda hoje, há quem acredite que os navios brasileiros torpedeados o foram por submarinos americanos e não por barcos da marinha alemã.  Também não falta quem pense que fomos à Itália por imposição dos americanos, quando na verdade, não há razão para duvidar que foram os chefes do Estado Novo – isto é, Vargas, absoluto, e uns poucos mais – os responsáveis pela criação da FEB.  Mas esta última questão não é tão simplória quanto à outra.  Quais eram, pois, os interesses ligados ao envio de tropas brasileiras à guerra?  De um modo geral, como se saíram os pracinhas na frente de combate – mais para fiasco ou para sucesso?  Para isso pretende-se esclarecer o comportamento dos soldados no front[2] de batalha nos momentos de terror e medo, identificando através das narrativas e registros, as marcas deixadas pela Segunda Guerra Mundial.  Saber como foi o processo de adaptação e interação com os soldados americanos e revelar a veracidade dos elogios públicos e propaganda do governo brasileiro, referente à atuação e o cotidiano dos pracinhas na Segunda Guerra.  Por isso procurou-se manter o cuidado de diferenciar a memória nacional (oficial) da memória subterrânea.  Como se pretende revelar a veracidade das propagandas feitas pelo Governo Getulista, sobre a participação da FEB na Segunda Guerra, utilizando o conceito de memória nacional, também será utilizado o conceito de memória subterrânea[3] com os relatos e experiências dos pracinhas.  Assim, tenta-se ampliar o conhecimento quanto a este momento de história.

VALORIZAÇÃO DA IMAGEM DA FEB

Membros da FEB no Navio americano General Man embarcando para Itália
            Sabe-se que, no governo de Getúlio Vargas, foi criado o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – que, constantemente, repassava para os jornais[4] , rádios[5] e cinemas ligadas ao governo, informações das atividades e atuações da Força Expedicionária na Itália.  O conteúdo dessas informações valorizava a preparação dos soldados brasileiros e repassava organização da Força Expedicionária Brasileira em solo europeu. A intenção do DIP, como órgão do Estado, era valorizar as atividades e realizações promovidas por Getúlio Vargas, para nele se criar a figura de um grande governante.  Isso, na teoria de Michael Pollak, contribuiu para a formação de uma memória nacional, ou seja, a memória formatada pelo Estado, onde se pretendeu, assim, o enquadramento da memória coletiva sobre este acontecimento, referente à participação da FEB na Segunda Guerra Mundial, promovendo uma violência simbólica, com a intenção de dar continuidade, durabilidade e estabilidade política ao Estado.  Por isso, de acordo com, a reflexão de Pollak, boa parte  dos relatos daqueles que vivenciaram o período getulista, possuem a imagem de um grande período que o Brasil viveu em sua totalidade.  Assim, a referência à participação do Brasil em uma Guerra Mundial, serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõe uma sociedade.
Medalhas, pins, correntes e símbolos da FEB e do 5° Exército Americano
            Com as entrevistas concedidas pelos pracinhas, na redação desta monografia, utilizar-se-á o conceito da memória subterrânea, que é justamente a história não oficial, através das experiências de guerra destes homens.  Tenta-se, assim, revelar se realmente o cotidiano dos soldados coincide com as informações lançadas pelo Estado Getulista.

A FORMAÇÃO DA FEB
             
Mascarenhas de Morais Comandante da FEB, Eurico Gaspar Dutra Ministro
 da Guerra  e Zenóbio da Costa General na Itália em 1944.
           Em agosto de 1943, ao ensejo da viagem que fez aos EUA,  o então ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, mencionou, em caráter oficial, a intenção do governo do Brasil em organizar uma Força Militar para o teatro de operações, que se organizaria em direção estratégica e ao alto comando militar dos EUA.  Tal fato veio oficialmente a público, através de uma entrevista coletiva do próprio general aos jornais da época, no qual dizia:
Não é mais segredo que cogitamos de enviar uma força expedicionária para fora do continente.  Os preparativos estão sendo feitos, em função,  em grande parte, do material norte-americano que estamos recebendo e ainda recebemos... Todos os brasileiros devem estar certos de que serão chamados a colaborar... Realmente, à imprensa compete o preparo psicológico da população do país para qualquer eventualidade à qual  a guerra conduza[6].
            Pode-se, assim, observar o tom de intimação por parte do General ao afirmar  o compromisso da imprensa em "preparar psicologicamente a população", fato que aconteceu em virtude do acompanhamento severo do DIP aos veículos de comunicação da época, tornando realidade os momentos e fatos correspondentes ao Brasil, naquela época, colaborando assim para a formação de uma memória nacional ou oficial.
            A portaria ministerial nº 47-44, de 9 de agosto de 1943, ordenou a criação da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE), e, no ano seguinte, estabeleceu-se a organização de duas outras, que, todavia, não chegaram a seguir para a Europa.  Restringiu-se, conseqüentemente,  a colaboração brasileira no tocante a forças terrestres, a uma divisão e alguns elementos do Comando do Exército e dos serviços gerais, num total de 25.334 homens.  Coube ao então General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais o comando do corpo expedicionário. 
Soldados brasileiros antes da ocupação de Porreta na Itália em 1944.
            Um problema, já de início,  era da mobilização do contingente.  Foi esse um dos mais graves problemas com que teve de arcar a alta direção de guerra, pois, embora respeitasse apenas as atividades de uma única divisão e de alguns reforços, a falta de preparação técnica e psicológica e a deficiência de aparelhamento e instalações, entre muitas outras coisas, dificultaram o trabalho dos chefes militares, sobre quem recaíram as maiores responsabilidades.  Para  se lançar alguma luz sobre esses fatos, não mencionados pela história ou memória nacional, partiu-se para a memória subterrânea, que reflete aspectos negativos dos discursos do Estado e, para isso, lembre-se aqui o testemunho do importante Coronel Rui Moreira Lima, relatado em seu livro [7] e  confirmado a um jornal brasileiro[8], que realmente os soldados e praças brasileiros não estavam preparados:
         (...) sem nenhum preparo físico ou técnico, foi mandada para terra estranha sem condições sequer de enfrentar a neve dos Montes Apeninos.  Não havia sequer equipamento nem eles tinham noção do que iam encontrar pela frente.  Era comum um soldado se recusar a ir para o front com um  fuzil que levava do Brasil. E tinha razão.  Eram armas completamente obsoletas.  Os americanos tiveram que criar unidades especiais de treinamento, onde os soldados brasileiros aprenderam a usar armas modernas.  Nossos soldados aprenderam a lutar na guerra. (Jornal '"Estado de São Paulo", 01.09.1989).
            Ao contrário disso, o governo exibia na época, através do Cine Jornal Brasileiro[9], as atividades positivas do contingente febiano, formando nossa memória nacional, e reproduzida através da história por filmes, livros, reportagens e relatos dos que vivenciaram aquele período.
            Em mais um relato, agora de um pracinha de Porto Velho, confirma-se o despreparo dos soldados e a contradição de Getúlio ao entrar na guerra ao lado dos Aliados:
         Bom, nossa tropa não estava muito preparada, que a gente tava preparando para a guerra, a tropa para entrar pra uma guerra tem que ta bem preparada, mas no cotidiano do nosso, de qualquer exército, é pra guerra... né?... aí, nós fomos, tanto que nós fomos pra lá... chegamos em Nápoles e recebemos fardamentos... recebemos instrução... eu fiz um cursinho lá de uns 15 dias, daqueles cursos rápidos.  É, uai, o Getúlio não queria entrar na guerra, ele... ele era meio nazista, ta?... nazista era quem era alemão, ele era meio nazista, mas o americano foi pra cima dele, não é?... o americano,  presidente dos Estados Unidos, o Roosevelt, que era naquele tempo, veio aqui no Brasil e forçou a barra em cima de Getulio[10].

            Apressadamente escolhidos, a tropa recrutada e os voluntários, vindos de todas as partes do Brasil, seguiu-se a concentração na Vila Militar, localizada em um subúrbio do Rio de Janeiro.  Surgiu, a seguir, outra séria preocupação para o alto comando da FEB: a instrução do contingente.  Pautando sua organização pelos ensinamentos praticados com a missão francesa, que aqui chegou em 1921, o problema da adaptação aos métodos norte-americanos consubstanciava-se num aprendizado quase integral de uma nova doutrina, inteiramente estranha ao exército nacional.  A dificuldade se agravava pelo fato de o número de instrutores ser ínfimo em comparação com a grande massa de recrutas, tanto quanto pela premência de tempo de que dispunha para realizar a tarefa, já que eram próximos os dias de embarque dos contingentes da FEB.  Apesar de todos os esforços, os resultados obtidos ficaram muito aquém do previsto e, não fosse ter a preparação continuado além-mar, atenuando as deficiências da época do embarque, teria sido bastante difícil para a FEB desincumbir-se satisfatoriamente nas missões de pequeno porte na Itália.
            A 6 de dezembro de 1943, acompanhado de diversos oficiais, o General Mascarenhas de Morais  partiu para visitar o norte da África e da Itália.  Ao regressar em janeiro, deixou junto ao quartel-general do V Exército americano, em Casara, um grupo de observadores, encarregando-o de informar tudo que pudesse facilitar  a ação brasileira na Europa.  A 31 de março e a 24 de maio de 1944, desta vez em homenagem à Batalha de Tuiuti[11], desfilou a Primeira Divisão de Infantaria Expedicionária - DIE pelas ruas do Rio de Janeiro, sob as aclamações populares, e tudo sendo devidamente documentado e registrado através das câmeras do DIP, que logo utilizou as imagens para novamente favorecer a figura de Getúlio e seu governo.
Embarque para a Segunda Guerra Mundial na Itália - Teatro de Operações da FEB. 
            A polêmica e as contradições parecem conviver lado-a-lado em relação a participação do Brasil através da FEB na segunda Guerra Mundial.  São, também, bastante conhecidos os debates relativos à participação do Brasil na guerra, que vão desde as motivações para a entrada do país, como, por exemplo, o suposto torpedeamento de navios brasileiros por submarinos alemães, que para um dos pracinhas entrevistado, João Evaristo de Mendonça Neto, foi causado pela marinha norte-americana: "Tenho certeza, pra mim foi os gringos que torpedearam os navios brasileiros, para forçar 'nóis' entrar na guerra".
            Antes da preparação para a guerra, foi realizada no Brasil, na cidade do rio de Janeiro, em janeiro de 1942, uma conferência que reuniu chanceleres de 211 repúblicas americanas.  Era uma reação ao ataque efetuado em dezembro de 1941 pelo Japão aos Estados Unidos,   que motivara a sua entrada na guerra.  Segundo uma publicação norte americana, traduzida e distribuída no Brasil, gratuitamente, durante a Segunda Guerra[12]
Os representantes das 21 repúblicas americanas reiteraram a sua solidariedade em meio de um mundo esfacelado pela guerra e reafirmaram os princípios americanos de unidade, liberdade e igualdade, numa série de 41 importantíssimas resoluções que se tornaram o Estatuto do Rio de Janeiro" (AQUINO).

            A conferência recomendava a ruptura diplomática com a Alemanha, a Itália e o Japão.  Antes de sua realização, dez nações americanas haviam declarado guerra ao Eixo.  Outras três nações haviam rompido suas relações com os países inimigos dos aliados e durante a conferência, seis governos cumpriram imediatamente a recomendação.  Assim, 19 das 21 repúblicas achavam-se em guerra (declarada ou não) com o Eixo, por ocasião do encerramento da conferência.
            Esta reconheceu unanimemente que a agressão cometida contra os Estados Unidos constituía um ato de agressão contra todas as demais repúblicas americanas e uma ameaça à segurança de todo o continente e à própria "civilização cristã".
            Lembrou também da ruptura de todas as relações comerciais e financeiras, diretas ou indiretas, enquanto durasse a guerra.  Sugeriu rígido controle nos meios de comunicação radiotelegráficos e radiotelefônicos, rigorosa fiscalização das atividades dos nativos do Eixo e redobrada vigilância contra a entrada de elementos inimigos, coordenação do sistema de polícia e investigação das Américas e providências imediatas para restringir o uso e operação de aeroplanos civis ou comerciais e quaisquer facilidades de aviação, a cidadãos e empresas das repúblicas americanas ou de outras nações amigas.

PARTINDO PARA A ITÁLIA
Parada militar da FEB no Rio de Janeiro antes do embarque para a Itália.
            O governo brasileiro recorreu aos Estados Unidos para que facilitassem o transporte do grupamento para a Itália.  Em julho de 1944, o navio transporte General Mann estava no Rio de Janeiro, à disposição da FEB.  Os embarques do contingente foram escalados e começaram no dia dois de julho.  Os últimos elementos da FEB só chegariam na Itália em 22 de fevereiro do ano seguinte.  Esse escalonamento resultou no emprego fragmentado da divisão, o que criou vários problemas para seu comandante.
            O navio partiu do Brasil às 6 horas do dia 2 de julho de 1944, iniciando uma viagem em que nenhum dos pracinhas tinha qualquer informação sobre seu destino.  O General Mann iniciou a viagem comboiada por três destroyers da Marinha brasileira, além de embarcações menores.  Os praças foram alojados nos beliches de quatro porões, que se sucediam verticalmente, sendo que o último deles ficava a cerca de 10 metros abaixo do nível da água.  Cada compartimento alojava o total de uma Companhia.  Quanto mais profundo o porão, mais abafado e quente, apesar dos sistemas de ventilação.  Os banhos eram com água do mar, que refrescava um pouco, mas deixava o corpo dos soldados com a sensação desagradável de estar pegajoso.
            Cada compartimento tinha um oficial responsável pela sua limpeza e pela sua disciplina, com revezamento de 4 em 4 horas.  Mas, depois de algum tempo de viagem, muitos oficiais começaram a ter problemas de enjôo e não tinham condições de ficar nos alojamentos, sendo substituídos pelos que não tinham esse problema.
            Paulo Nunes Leal, ex-Governador do antigo Território Federal de Rondônia, relatou situações do cotidiano dos pracinhas nos navios, em seu livro A guerra que eu vivi[13]
         O que mais estranhamos, de início,  foram as privadas com seus vasos sanitários sem divisões, o que provocava constrangimento, especialmente aos oficiais superiores e aos capelães militares.  A alimentação de bordo era farta e nutritiva, mas que não agradava ao nosso paladar, especialmente pelo tempero, quase sempre adocicado.  Um soldado da minha Seção, Miguel Paiva Jacques, que tinha um defeito físico, puxando um pouco de uma perna ao caminhar, não deveria ter sido convocado, especialmente para integrar uma unidade de combate.  Tratava-se de uma pessoa de ótimo gênio e do tipo que chamamos de "virador", comunicativo e sagaz, mas sem condições físicas para ser combatente.  Não sei como ele se insinuou junto ao pessoal do navio, sem saber uma palavra de inglês, passando a ser ajudante de cozinheiro.  Nessa situação tinha acesso ao depósito de alimentos e, de vez em quando, aparecia em nosso camarote com um punhado de maçãs, que acabavam por melhorar nossas refeições.
            Outro febiano, o senhor Rufino Rodrigues Carneiro, entrevistado em Porto Velho e radicado aqui, relatou fatos sobre o cotidiano a bordo do navio americano que transportava os soldados brasileiros:
         Ah! Você  quando entra na guerra, meu filho, você se entrega sua vida a morte, você entrega sua vida. Pra você  ter uma idéia, esse navio que nós fomos, ele tinha 4 porões, um dois três, quatro porões.  O meu ficava abaixo do nível da água, lá embaixo.  Estou dizendo que o navio levou mais de 6 mil homens... já viu que navio grande, né?... Então depois eu fiquei sabendo o que estranhava nesse tempo.  Eu era segundo sargento.  Eu estranhava que o plantão do porão fosse um oficial, um tenente... mas... (puta...), mas nunca... que beleza, hein... A gente aqui neste porão e um tenente de plantão... Nunca tinha visto tenente de plantão.  É que era pro tenente, se o navio fosse torpedeado... pro tenente... fechava os portões... porque, já pensou (?) seis mil homens querendo se salvar com o navio torpedeado?...[14]
            Uma vez, na Itália, o 1º escalão de embarque rumou de Nápoles para  Tarquínia, onde foi incorporado ao V Exército americano.  Devido a uma grande redução dos efetivos sob seu comando, o general americano Mark Clark, comandante do V Exército, apressou o treinamento dos pracinhas brasileiros, para que pudessem entrar rapidamente em ação.  Devido à inexperiência do grupo ele foi destacado de início para um setor relativamente calmo, até que, segundo as palavras de Mark Clark "tivesse recebido a inoculação do combate".
Reportagem da época sobre os Soldados da FEB em 1945.
            Ainda era um problema o treinamento dos soldados brasileiros, alguns nem tiveram o devido curso e aqueles que tinham, traziam ainda as táticas e técnicas da escola militar francesa.  O próprio General Mascarenhas de Morais (Comandante da FEB), relata em seu livro de memórias[15], sobre as primeiras dificuldades para a organização FEB que logo afloraram.  As primeiras oriundas da situação de indefinição político-ideológica em que vivia o país naquele momento:
         Certas decisões de âmbito governamental, relacionadas direta ou indiretamente com a criação da FEB, convenceram-me de que a vontade do Presidente Vargas passara a prevalecer nos rumos de nossa política exterior.  Tal prevalecimento todavia, não se processou com a desejável plenitude, porquanto permaneceram em seus postos da administração pública, alguns auxiliares imediatos do Chefe do Governo, sabiamente contrários à participação do Brasil na guerra ao lado das democracias.
         Assim é que, ao invés de nossas autoridades buscarem o robustecimento de nossa gente e cultivarem a enorme simpatia pela causa das nações democráticas, quedaram-se em condenável complacência ante o movimento de desagregação empreendido pelos simpatizantes e adeptos da causa totalitária.  Elementos do quinto-colunismo indígena, instalados em postos importantes da vida nacional... Usaram eles dos mais diversificados processos para impedir que tropas brasileiras viessem a combater os exércitos totalitários da Europa (MATTOS, 1983).
            Outras dificuldades eram de ordem técnica,  próprias das adaptações a uma situação nova que se impunha ao exército, de formação profissional e organização militar modelo francês implantado há 25 anos e que, de repente, teria que enfrentar a necessidade de organizar rapidamente uma Divisão de Infantaria e outros órgãos dentro dos padrões de comando, organização de unidades e material norte-americanos.  Novamente o General Mascarenhas foi de encontro com a maneira positiva de organização da FEB reproduzida pelo Estado Novo:
         O País não teve preparação psicológica adequada.  Estivesse as autoridades ideologicamente unificadas, ao invés de divididas, mais simples e rápida seria a solução dos problemas resultantes da nova organização militar, nos moldes americanos;  do suprimento dos novos armamentos; da confecção de uniformes apropriados ao clima frígido em que a FEB foi combater;  da seleção de pessoal (...).

            Segundo o próprio General, a seleção dos soldados para compor a FEB, não procedeu de forma correta.  Para ele o potencial humano representava o fator crítico por excelência do esforço de guerra de um país.  Por isso, é fato, o exército brasileiro não estava preparado de acordo com as informações transmitidas pelo governo do Estado Novo, através do Departamento de Imprensa e Propaganda, que não media elogios para a competência da FEB.  A guerra moderna, baseada na técnica e na especialização, exige qualidades físicas intelectuais e morais, quando então, boa parte do contingente era analfabeta e eram, em sua maioria, franzinos,  nas palavras do próprio General:
         O pessoal que integrou a FEB não foi submetido à rigorosa seleção física e neuropsiquiátrica... As Forças Armadas americanas submeteram seus homens a uma rigorosa seleção física e intelectual, encontrando elevada percentagem dos que estavam abaixo do padrão prefixado.
            No livro do Coronel Adhemar Rivermar de Almeida, também não faltam queixas quanto ao despreparo dos pracinhas brasileiros:
         Se os exames físicos deixaram a desejar, pior ainda, foram os psicológicos por cujas malhas passaram centenas de homens, inclusive oficiais que não estavam em perfeitas condições para suportar as imensas responsabilidades que lhes caberiam na batalha.  As intensas e variadas emoções da luta e as bruscas e violentas mudanças de atitude, exigem dos combatentes, além de muito vigor físico, perfeito equilíbrio emocional, do contrário torna-se-ão presas fáceis do ridículo e da covardia.  Muitas  vezes um corpo aparentemente são encobre um espírito fraco que, ao primeiro contato com a realidade, lança-o irremediavelmente ao solo, como tantos casos que se verificaram na própria FEB.  Inversamente, muitos indivíduos franzinos e débeis, agitam-se na luta, exatamente porque têm um espírito forte e uma formação sólida a impedi-los para frente[16].

Desembarque em Nápoles na Itália - início do confronto em 1944.

            O importante é entender, que em nenhum momento a intenção é denegrir a imagem dos pracinhas. Fundamentalmente tentamos compreender como Vargas utilizou a FEB a seu favor, quando a valorização da imagem de um grande governo, que enviou o exército brasileiro para lutar no confronto mais importante da história do mundo.
Heróis ou não, pouco importa. O pracinha brasileiro foi forte, criativo e corajoso diante das adversidades no teatro de operações na Europa. Enfim, lutou sim contra o nazismo, mesmo que ironicamente o Brasil vivia um regime semelhante aos preceitos de Hitler.

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098


[1] Regiões de montanhas e montes no território italiano.
[2] Termo utilizado para representar o campo de batalha ou as linhas de frente.
[3] POLLAK, Michael. Estudos históricos. FGV. Rio de Janeiro, 1992, p. 207.
[4] Jornal Alto Madeira-RO, também fazia parte dos Diários Associados.
[5] Repórter Esso, era utilizado como veículo de comunicação do Estado.
[6] Jornal Alto madeira – território do Guaporé, 21 de outubro de 1943.  Ano XXVII, nº 2.732. Entrevista concedida pelo General Eurico Gaspar Dutra aos diários Associados.
[7] LIMA, Rui Moreira. Senta a pua. Biblioteca do exército. Rio de Janeiro, 1980.
[8] Jornal O Estado de São Paulo. 01 de setembro de 1989.
[9] Programa televisivo do governo apresentado em cinemas e tvs da época.  Imagens do documentário de Sylvio Back. Radio Auriverde. Tv Cultura.
[10] Relato do ex-combatente da FEB, Rufino Rodrigues Carneiro, transcrito na íntegra, em linguagem formal, sem correções.
[11] Batalha onde o exército brasileiro obteve vitória na Guerra do Paraguai.
[12] Estas revistas, que não possuem identificação de origem, foram consultadas por Maria Aparecida de Aquino (Segunda Guerra Mundial – um balanço histórico), da coleção do radioamador e colecionador Paulo Kasseb.
[13] LEAL, Paulo Nunes. A guerra que eu vivi. Editora JS. Rio de Janeiro, 2000.
[14] Relato do ex-combatente da FEB Rufino Rodrigues Carneiro.
[15] MATTOS, Meira. O Marechal Mascarenhas de Morais e sua época. Biblioteca do Exército Editora. Rio de Janeiro, 1983.
[16] ALMEIDA, Adhemar Rivermar de.Montese, Marco Glorioso de uma Trajetória. Biblioteca do Exército Editora. Rio de Janeiro, 1985. 

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