terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Caravana FORD, uma aventura em Rondônia


Quando é que um acontecimento deixa de ser passado para começar a ser história? Será somente pelo número de anos decorridos, ou em cada caso haverá um tempo próprio, de acordo com a importância regional ou nacional de fato, com a existência do registro de informações que poderão ser examinadas e analisadas, ou quando a maior fonte de informações reside na memória e na lembrança dos que dele participaram, podendo a perda desses testemunhos dar lugar a versões que não corresponde à verdade?

Sem a pretensão de ser o dono da verdade, desejando apenas reavivar fatos que já vão ficando no esquecimento, e considerando a importância da BR 364 na vida econômica de Rondônia, como fator decisivo na criação das condições que permitiram a transformação do Território em Estado.
Os desbravadores que chegaram, no início da ocupação dessa terra ainda deserta da presença do homem não índio, e penetraram nas florestas em busca da castanha e da borracha, fundaram as primeiras povoações, construíram a Madeira Mamoré, rasgaram as primeiras trilhas terrestres e pelos cursos d’água atingiram as regiões do interior, foram os pioneiros e precursores de Rondônia de nossos dias.
Então veio a abertura da BR 029, num ato de ousadia e lúcida visão do presidente Juscelino Kubitschek, transformando Rondônia a partir daquele momento na maior frente de migração interna no Brasil e na mais próspera fronteira econômica do país.
Em uma reunião de governadores, levada a efeito nos primeiros dias de fevereiro de 1960, com o presidente da República, Juscelino Kubitschek, onde se faziam presentes os governadores dos territórios federais de Rondônia, Acre e Rio Branco (Roraima), além do governador do Estado do Amazonas, respectivamente Paulo Leal, Fontenele de Castro, Hélio Araújo e Gilberto Mestrinho, o coronel Paulo Leal, usando seus bons conhecimentos técnicos em engenharia, demonstrou ao presidente a necessidade de reiniciar a construção da BR 29. Para isto, chegou ao gabinete do presidente sobraçando grosso rolo contendo mapas e recortes de jornais, ao mesmo tempo em que contava com o apoio e entusiasmo de seus colegas da região. Juscelino ouviu-o. Como uma de suas metas era construir estradas para integrar o Brasil, ficou empolgado a ponto de determinar ao DNER a imediata execução dos trabalhos, mesmo por que pretendia inaugurar a estrada, antes do final do ano.
Mas a abertura da rodovia não fora suficiente, pois a mesma não era pavimentada, e se tratando da Amazônia e no seu período chuvoso, logo a mesma estrada de tantos sonhos, se transformara e uma rodovia de pesadelos, onde em determinadas épocas se levavam dez dias de Vilhena até Porto Velho, em virtude dos inúmeros atoleiros e pontes de madeira frágeis sob o efeito do tempo.
Mapa do roteiro da Caravana Ford em 1960.
No final de 1960, uma equipe formada com motoristas e mecânicos do governo, além de particulares, levou 59 dias de São Paulo a Porto Velho, conduzindo uma caravana de carros da FORD, chefiados pelo telegrafista Antônio Brasileiro, mais tarde substituído pelo mecânico Eduardo Lima e Silva.
Enfrentando o areião desértico, bebendo água de tambores, comendo conserva, enfrentando lama pelos picadões recém abertos, por tratores da Camargo Correia na floresta Amazônica; ou ainda, quando chovia, bebendo água coletada nos caminhões, ao mesmo tempo em que se banhavam na chuva, procurando mitigar o calor sufocante.
Na trajetória da caravana, somente encontravam tapiris e insetos em grandes quantidades. Na estrada que seria a Cuiabá-Porto Velho, também encontravam os índios que eram em bom número na região.
Entre alguns personagens interessantes entre tantos que participaram dessa aventura, fizeram parte o jornalista e diretor de cinema Manuel Rodrigues Ferreira que jovem naquela época fez inúmeras matéria sobre a caravana para jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro, posteriormente acabou escrevendo a melhor obra sobre a ferrovia Madeira-Mamoré, o livro “Ferrovia do Diabo”. Também fazendo a cobertura da aventura durante um pequeno período o famoso jornalista Vladimir Herzog. Entre aqueles que ainda estão vivos para contar a história, temos o folclórico e carismático Sr. Gervásio que foi responsável pelas travessias dos caminhões em pontos de pontes e pinguelas que exigiam muita perícia, o mesmo reside em Porto Velho e em 2015 recebeu a Comenda Marechal Rondon, maior honraria do estado, por fazer parte de um seleto grupo de destemidos pioneiros de Rondônia.

Missão desse tipo exigia a escolha criteriosa e apurada de seus componentes, pois dificuldades para cumpri-la não iriam faltar. Chefe da expedição inicialmente, o chefe do gabinete do governador, Antônio Brasileiro, depois tivemos fazendo parte a importe figura história Eduardo Lima e Silva conhecido também como Dudu. A expedição também tinha como integrantes, o jornalista da Folha de São Paulo Hugo Penteado, o Coronel da Aeronáutica e naturalista Moacir Alvarenga, médico Carlos Fleury,  o mecânico da ford Sergio Zalawska, o jornalista  Álvaro Costa, cinegrafista Nestor Marques, José Araújo, Antônio Gervásio, Cordiel Firmino, Milton Luiz dos Santos, Benedito Cardoso, o empresário Roberto Casanave (representante da FORD em Porto Velho), Ireno Ribeiro, Raimundo Feitosa, Auzier Santos, Severino (cozinheiro), José Maria Saleh, Eduardo Lima e Silha filho e Antônio Costa Pereira.
A caravana Ford saiu de São Paulo no dia 28 de outubro composta por sete caminhões F-600, um trator e um jeep. Atravessando balsas e enfrentando a lama, ruindo pinguelas, abrindo variantes, até chegarem em Porto Velho no dia 28 de dezembro às 20 horas, sob aplausos de grande público e do governador Paulo Nunes Leal.

Aleksander Palitot
Professor e Historiador  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Rondônia, 35 anos de criação.

Foto de Rodrigo Erse.
O reconhecimento histórico é a busca para a compreensão dos esforços de nossos antepassados para a construção da atual sociedade. Conhecer a cultura, costumes e ensinamentos de diferentes povos, mostra como a variedade pode contribuir para o saber e o desenvolvimento do presente, além de ser a base para a evolução do futuro.
Se o mundo se encontra em São Paulo, o Brasil se encontra em Rondônia. Somos um verdadeiro mosaico. Um lugar de riquezas históricas e culturais variadas. Assim é Rondônia, um Estado novo, com fortes traços indígenas e diversas influências culturais que, ao longo do tempo, formou uma cultura única, miscigenada, como em nenhum outro local. Essa expressão cultural do Estado está presente na rica gastronomia, no folclore, na beleza do artesanato e na sua história, que possui capítulos de momentos e ciclos econômicos, que proporcionou ao homem encarar inúmeros desafios em meio à grande Floresta Amazônica; homens que deram o suor, o sangue e a vida por uma grande história.
Índio Suruí - Foto de Rodrigo Erse
O desafio dos desbravadores de Rondônia teve sua primeira página escrita na história, no momento da chegada de sertanistas e bandeirantes nessa região, homens como Raposo Tavares e Francisco Palheta, que ousaram encarar as regiões mais inóspitas do Brasil Colônia, para garantir no passado à coroa portuguesa, a posse desse rico território. Durante o período de exploração dos vales do Madeira, Mamoré e Guaporé, vivemos o ciclo do ouro e das drogas dos sertões, o homem busca a riqueza a todo custo, enfrenta índios, o calor, a fome e as doenças. É constantemente energizado com o sonho do Eldorado, com a possibilidade de conseguir riquezas alçando assim, parte de seus objetivos.
Batelão do Divino no Rio Guaporé - Foto de Rodrigo Erse.
Para garantir a posse de nossa região, a Coroa Portuguesa deu ordens para construir fortificações com o propósito de combater os invasores espanhóis e estabelecer aqui o controle das terras amazônicas. E assim, as margens do rio Guaporé se inicia no século XVIII, a construção de uma obra prima em meio a Amazônia, o monumento mais antigo de Rondônia, o Real Forte do Príncipe da Beira, que é considerado um dos maiores fortes da América do Sul.
Rio Guaporé em Costa Marques - Foto de Rodrigo Erse.
Rondônia também viveu os tempos áureos do ciclo da borracha, foi daqui dos Vales do Madeira, Mamoré e Guaporé que saiu o ouro branco, o látex, a tão desejada borracha, destinada aos centros industriais da Europa e dos Estados Unidos. Foi nesse contexto que a nossa miscigenação ganhou força, ganhou detalhes formidáveis, eis que surge na nossa história o migrante nordestino, quem vêm para Rondônia em busca de melhores dias e aqui, se veste de coragem e esperança em dias melhores, longe da seca do nordeste brasileiro. É aqui na Amazônia que os elementos culturais nordestinos vão se misturar aos valores e realidade cabocla e beradeira, é aqui no coração da América que viverão faces marcantes de sua história os índios, o negro e o branco. É portanto, durante o ciclo da borracha que o homem entende que se faz necessário manter a floresta em pé, ter-la assim é sinônimo de desenvolvimento, lucro e futuro. É do corte da seringueira que se extrair a vida, o dinheiro e o sustento.
Estrada de Ferro Madeira Mamoré - Foto de Rodrigo Erse.
Para o ouro branco, a borracha, chegar mais rápido aos grandes centros, o homem viveu um dos maiores desafios já enfrentados. O Trem Fantasma, a Ferrovia da Morte, a Estrada de Ferro Madeira Mamoré que se tornou, a mais nova obsessão dos pioneiros de Rondônia. Havia a necessidade de escoar a grande produção da borracha, que encontrava dificuldades entre os trechos de saltos e corredeiras entre os Rios Madeira e Mamoré. Não foi fácil, foram necessários quarenta anos para consolidar a travessia daquilo que era o mais moderno do mundo, os trilhos e a sua Maria fumaça. Vidas foram ceifadas, lendas foram construídas e o sonho mais uma vez concretizado. Mas é de lendas e sonhos, que se fortalece o espírito humano e jamais será esquecida a proeza dos que viveram, sofreram e morreram pela Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
Festa do Duelo da Fronteira em Guajará Mirim. - Foto de Rodrigo Erse.
Rondônia com seu nome homenageia um dos personagens mais nobres de nossa história, o grande sertanista Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, nobre explorador que em 1909 por aqui chegou, e dois anos depois fundou a primeira Estação Telegráfica de Rondônia na localidade de Vilhena. A partir da Estação Álvaro Vilhena, este grande sertanista seguiu por todo o Estado até Porto Velho e depois Guajará-Mirim.
Menina cabocla em Rondônia - Foto de Rodrigo Erse.
O Estado de Rondônia sempre foi palco de grandes histórias, de grandes aventuras e odisséias, mas nenhuma história ou momento foi mais especial do que a vinda dos migrantes na década de 70. Naquela época, a região é invadida e conquistada por milhares de pessoas de todos os recantos do Brasil, que chegam com seus sonhos e encaram muitos pesadelos. Tudo estava ainda por construir, e é com esses braços fortes e coragem no coração, que os brasileiros fazem Rondônia ser protagonista de um dos maiores surtos migratórios da história do Brasil. Mas também, houveram confrontos, mortes e destruição, a história não apaga, o rastro de sangue dos povos indígenas.
Frutos - Foto de Rodrigo Erse.
Em 4 de janeiro de 1982, o sonho daqueles que chegaram aqui se consolida, o Estado é criado mas, ainda nos resta a grande motivação de sempre acreditar que é possível melhorar. Hoje Rondônia mais uma vez vive um ciclo épico, é necessário que cada Rondoniense e Rondoniano possa lutar lembrando sempre daqueles que estiveram aqui antes de nós, e desempenharam com heroísmo a construção de nossa história.

Aleksander Palitot
Professor e Historiador


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Três Marias, história e patrimônio abandonados

Praça das Caixas D'água - Porto Velho.
Identidade seria, em linhas gerais, o sentido de pertencer que as pessoas trazem enquanto seres simbólicos que são. Esse ser de algum lugar pertence a algum grupo, sente afinidade com algo que lhe resgata algo seu; isto é chamado de identidade (BERRY, 1991). O conceito de identidade passa por diversas abordagens. A psicologia social e antropologia deslocaram seu enfoque para a questão da individualidade e os processos de perspectiva grupal, quando trata da identidade étnica e identidade social.
A identidade social pode ser compreendida como o conhecimento por parte do indivíduo, de que pertence a um determinado grupo social. Junto a isto está a significação valorativa e emocional de pertencer, sentir-se parte. Todo grupo necessita de uma cultura que os sustente para poder existir, vivenciada no sentido comum e repassada através da comunicação, para manter o sentido de pertencer entre seus integrantes.
Bandeira de Porto Velho. Criação de Antônio Cândido.
Quem nunca parou para tirar uma foto ao lado das Três Marias? Essas peças oriundas da ferrovia são símbolos de nossa cidade.  Elas estão na bandeira de Porto Velho e no brasão da nossa cidade. Já foi homenageada com carros alegóricos em carnavais, em peças de artesanatos, em pinturas, em músicas, e etc. Por que estão abandonadas? A última vez que as três marias foram revitalizadas foi na gestão do prefeito José Guedes no início da década de 90. Hoje o estado de nosso patrimônio cartão postal de nossa cidade é deplorável. Completo abandono e corre o risco de tombar pela ferrugem de suas bases de sustentação. Triste constatação que nosso símbolo, foi esquecido pelos gestores públicos que não entenderam ser importante a revitalização daquele espaço de encontro com nossa história e identidade.
Bairro Caiari onde está localizado as Tês Marias.
As três Caixas d’ água possuem capacidade para armazenar 200 mil litros cada. O projeto de execução dessa obra foi da Chicago Bridge Iron Works. Construídas pela May, Jekll y Randolph durante a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Em1910 temos apenas uma caixa d’água que entra em funcionamento dia 30 de novembro segundo informações contidas no livro “ Ferrovia do Diado” de FERREIRA, e em 1912 é concluída a montagem de mais duas. Essas caixas d’água, pintadas de preto, tinham tampas pintadas de branco, durante muito tempo abasteceram a cidade de Porto Velho, quando em 1957 foram desativadas. Foi tombada como patrimônio histórico em 1988.  

Três Caixas D'água - Patrimônio histórico de Porto Velho - RO
Ao discutirmos o Turismo como empreendimento viável social, cultural, ambiental e economicamente, sempre vem à tona a discussão oferta e mercado e como aproximá-los, notadamente em áreas de reconhecido desinteresse turístico.  Como falar em turismo em Porto Velho quando os nossos possíveis pontos para tal atividade estão abandonados? Precisamos fazer o dever de casa. Só assim, com políticas públicas adequadas poderemos fazer o melhor por nossa cidade com Economia Criativa e Social, gerando emprego, renda, sustentabilidade e pertencimento.   

Aleks Palitot
Professor e Historiador


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Guajará-Mirim, o turismo como fator de desenvolvimento local e sustentável

Hotel de Selva em Guajará-Mirim.

O que é entendido por natureza não é natureza em si, mas a imagem que se faz dela. Essa imagem altera-se no decorrer do tempo, pois o entendimento é uma construção humana produzida pela cultura dos povos. As conjunturas culturais, pelo seu dinamismo, estão sempre sendo modificadas, e com elas modificam-se também as formas de percebermos e compreendermos a natureza. Dependendo do momento histórico e das conjunturas decorrentes, teremos conceitos, imagens, interpretações e formas de relacionamento diferentes com a natureza.
A sensibilização diante das questões ambientais presentes em nossa sociedade atual tem gerado uma preocupação cada vez maior em relação ao meio ambiente e uma nova postura perante ele, por isso, a sustentabilidade aliada a proposta turística para uma comunidade pode ser um mecanismo viável de relação da sociedade com o meio ambiente. O turismo sustentável tem estado presente em todas as novas orientações turísticas, como pode-se observar na Política Nacional de Turismo no Brasil em curso, que privilegia essa forma de desenvolvimento.

Festa do Divino no Vale do Guaporé e Mamoré.

No que diz respeito ao turismo religioso, este é uma modalidade que movimenta um grande número de peregrinos em uma viagem pelos mistérios da fé e da devoção a algum santo. Andrade[1] denomina o turismo religioso como: “ o conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas a lugares ou regiões que despertam sentimentos místicos ou suscitam a fé, a esperança e a caridade nos fiéis de qualquer tipo ou em pessoas vinculadas a religião”. Ressalvado o turismo de férias e o turismo de negócios, Andrade diz que o tipo de turismo que mais cresce é o religioso, porque além dos aspectos míticos e dogmáticos, as religiões assumem o papel de agentes culturais pelas manifestações de proteção a valores antigos, de intervenção na sociedade atual e de prevenção no que diz respeito ao futuro dos indivíduos e das sociedades.
Em Pirenópolis em Goiás, onde ocorre os festejos do Divino Espírito Santo. A cidade vive o fluxo  de romeiros que vivem uma semana de festividade gerando assim arrecadação no município através da prestação de serviços dos hotéis, restaurantes e comércio em geral. Entendemos que estes exemplos podem servir como inspiração para o melhor aproveitamento dos festejos do Divino Espírito Santo em Guajará-Mirim, que além de ser uma festa centenária, possui alguns ingredientes interessantes por se tratar na única festa fluvial do gênero no mundo e de se situar na Amazônia.
Entendemos ser válido uma reflexão sobre uma restruturação econômica, de políticas públicas e estratégias de desenvolvimento local. A valorização do poder local é retomada na década de 80 no Brasil a partir do debate de descentralização, pacto federativo e reforma do Estado. No campo de disputa na sociedade sobre os caminhos destes projetos, algumas prefeituras desenvolveram um projeto inovador de democratização do poder local, que hoje incorpora como ação modernizadora de ação municipal. Entre os pontos relevantes destas a serem citados são: Inverter Prioridades de Governo em relação às formas tradicionais de governar, direcionando nossos recursos – humanos e financeiros – para áreas mais carentes. Recuperar a qualidade do serviço público e garantir a igualdade de acesso aos serviços urbanos básicos.
Contudo, para além e aprofundamento o debate de democratização do poder local, o processo de reestruturação econômica tem colocado novas necessidades e novos papéis para os municípios, em particular no campo de uma ação econômica e de geração de renda.
O papel dos municípios como agentes de promoção de desenvolvimento econômico está hoje também ligado a crise do padrão de acumulação fordista e as novas formas de flexibilização geradas em seu interior. O processo de reestruturação econômica rompe com as integrações regionais, compartilhadas horizontalmente, e criam possibilidades de novas integrações do município.
Pensamos que a resposta aos impactos da globalização sugere a necessidade de ações públicas locais, objetivando uma integração não subordinada, que privilegie as questões sociais e a construção do espaço da cidadania a partir de forças econômicas e sociais locais e regionais. Por isso o desenvolvimento sustentável privilegiando as riquezas culturais, históricas e naturais existentes podem ser um caminho para proporcionar um maior empoderamento financeiro para a comunidade de Guajará-Mirim, com a eliminação da tensão entre localidades está na constituição de novos arranjos políticos/financeiros/institucionais capazes de viabilizar projetos locais e regionais. Considerar que o desenvolvimento local consiste em potencializar o desenvolvimento socioeconômico tomando como base principal a mobilização de recursos humanos financeiros locais.   
O município de Guajará-Mirim além de possuir um complexo histórico de grande importância para o Estado de Rondônia, como é o caso da Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (museu) e suas locomotivas, também é detentora de uma grande área de reserva ambiental, além claro que paisagens de belezas cênicas. Em suma, sendo também um caminho natural o ecoturismo, que não é apenas o ramo da indústria turística que mais cresce rapidamente[2]; ele também é considerado tanto novo e promissor instrumento para preservar áreas naturais frágeis e ameaçadas quanto um meio de propiciar oportunidades para o desenvolvimento das comunidades dos países em desenvolvimento.
O ecoturismo genuíno deve basear-se em uma perspectiva de sistemas que inclua sustentabilidade e a participação da população local, naquelas regiões onde o maior potencial para o desenvolvimento de atividades ecoturísticas pode ser encontrado. O ecoturismo deve ser encarado como um cooperativo entre população local e visitantes conscientes e preocupados em preservar áreas naturais e seus patrimônios culturais e biológicos, através do apoio ao desenvolvimento da comunidade local. Por desenvolvimento da comunidade entenda-se conferir poderes aos grupos locais para controlar e gerenciar reservas, mas que também satisfaçam as necessidades econômicas, sociais e culturais do grupo.

Turismo religioso e a festa do Divino Espírito Santo

O Turismo Religioso trabalha com as mais diversas manifestações da fé e da busca pelo espiritual. Diversas regiões do mundo movimentam milhões de pessoas a cada ano em função de romarias, peregrinações, excursões e eventos religiosos múltiplos. Tais práticas ocorrem em todas as sociedades com maior ou menor intensidade.
 Acredita-se que em todo mundo mais de meio milhão de pessoas desloquem-se anualmente para visitações, peregrinações e eventos religiosos. No Brasil a EMBRATUR situa em mais de 15 milhões o número de pessoas que viajam por motivações religiosas diversas. 
“O turismo religioso pode contribuir para a valorização e a preservação das práticas espirituais, enquanto manifestações culturais e de fé as quais identificam determinados grupos humanos, assim como oferecer condições para um desenvolvimento positivo na economia, na cultura e na qualidade de vida da população local. A partir dessas possibilidades, através desta pesquisa, a intenção foi buscar a identificação de locais que possuem significado religioso, evidenciando que o mesmo, uma vez planejado, pode se transformar em espaços com potencial para o desenvolvimento de atividades voltadas à prática do turismo religioso, com base nos princípios da sustentabilidade cultural”
Para termos uma referência da importância do turismo religioso, iremos comparar a Festa do Divino de Guajará-Mirim com a mesma Festa que acontece na cidade de Pirenópolis no Estado de Goiás.


Festa do Divino em Pirenópolis em Goiás.

A Festa do Divino em Pirenópolis é a mais significativa de todas as festas do gênero no Brasil.  Doze dias de festa na manifestação popular mais importante da cidade. A festa do Divino Espírito Santo, comemorada em Pirenópolis desde 1819, reúne desfiles das bandas de música, queima de fogos, congadas, bailes, entre outros eventos.
Mesmo com um PIB elevado em comparação a Pirenópolis, a cidade de Guajará-Mirim não consegue transformar essa perspectiva de desenvolvimento em qualidade de vida para seus munícipes. Diferente da ideia de crescimento – que sugere principalmente aumento em quantidade, a de desenvolvimento implica mudança de qualidade de vida e, também, o aumento dos graus de complexidade, integração e coordenação de um sistema. Uma análise de como tem evoluído o conceito de desenvolvimento pode ser feita pelas mudanças dos indicadores utilizados para medi-lo.
Julgava-se poder medir o desenvolvimento de uma sociedade pelo nível da produção e do consumo de bens de serviço, por meio de indicadores como Produto Interno Bruto – PIB Nacional. Foi com base no PIB per capita que os países foram classificados em desenvolvidos ou não, pela ONU. Ocorre que, como frisa Rattner[3], a taxa do PIB oculta tanto condições críticas de vida humana como dos ecossistemas naturais. De alguns anos para cá, por reconhecimento da insuficiência dos parâmetros econômicos para avaliar o desenvolvimento dos países a ONU está calculando o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH que considera três dimensões: saúde, educação e renda.


Imbuído de atender uma necessidade da pesquisa, buscamos nos arquivos da sede da Igreja Nossa Senhora do Seringueiro[4], em Guajará-Mirim, e na Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo – SEMCET[5], dados e informações históricas sobre um dos ventos culturais e religiosos mais antigos da região. A Festa do Divino teve sua origem em Portugal e foi estabelecida pela rainha Dª Isabel, casada com o Rei D. Diniz, por volta das primeiras décadas do século XIV. Na oportunidade a Rainha vivenciara no paço real uma briga familiar entre o Rei D. Diniz e seu filho. Por isso, ela teria feito uma promessa, caso a paz voltasse a reinar na corte e em sua família, que ela faria uma réplica da sua coroa e do cetro e os enviaria como cumprimento de tal promessa ao Divino às regiões pertencentes ao Reino de Portugal.
A Festa do Divino Espírito Santo, em suas diversas manifestações, é uma das mais antigas e difundidas práticas do catolicismo popular. Sua origem, conforme dito, remonta às celebrações realizadas em Portugal a partir do século XIV, nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes e distribuição de esmolas aos pobres. Essas celebrações aconteciam 50 dias após a páscoa, comemorando o Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu do céu sobre os apóstolos de Cristo sob forma de línguas de fogo, segundo nos conta o Novo Testamento.


Batelão do Divino Espírito Santo nas proximidades de Guajará - Mirim.

Em Rondônia, a Festa do Divino tem expressividade no Vale do Guaporé, onde a população ribeirinha procurou manter viva a tradição do festejo. O culto do Divino Espírito Santo foi introduzido no Guaporé, por volta de 1894, pelo senhor Manuel Fernandes Coelho, quando de sua mudança de Vila Bela do Mato Grosso para a localidade de Ilhas das Flores. Naquele ano, o senhor Manoel Fernandes fez vir de Vila Bela da Santíssima Trindade a Coroa de prata e, juntamente com outros adeptos, realizou os festejos do Divino naquela localidade. Todos os anos posteriores até o ano de 1932, o Divino foi festejado naquela localidade, sendo, então, os festejos transferidos para Rolim de Moura. Após o encerramento da festa, a comissão da Irmandade do Divino, junto com seus membros e presidente se reúnem para fazer o sorteio da cidade que sediará o próximo evento, ficando assim acertado e logo começam os preparativos para a festa do ano seguinte, que segundo (Malon 2014).

 Turismo Histórico

 A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e seu museu uma das mais significativas edificações da cidade de Guajará-Mirim é o prédio que serviu de estação ferroviária e que hoje abriga o Museu Histórico Municipal de Guajará-Mirim. A edificação data da primeira metade do século XX e este museu está localizada no prédio da antiga estação ferroviária de Guajará-Mirim, em Rondônia. Durante um longo período seu estado de conservação foi caótico. A situação tornou-se muito grave com a grande cheia de 1914, quando as águas do rio Mamoré chegaram até a edificação. A recuperação do prédio custou aos cofres públicos o equivalente a 450 mil reais e foi bancada pelos governos federal e estadual, através da Superintendência de Turismo.  
Museu Municipal de Guajará-Mirim antiga Estação Ferroviária.

A estação de Guajará-Mirim era o ponto final da Ferrovia Madeira-Mamoré, localizada no quilômetro 366 daquela estrada ferroviária. Foi inaugurada em 30 de abril de 1912 e extinta em 10 de julho de 1972. A obra teve uma história conturbada e custou milhares de vida e milhões de dólares aos governos da Bolívia e, posteriormente do Brasil, que pelo Tratado de Petrópolis (1903) assumiu seus custos e a sua construção. Guajará-Mirim ergueu-se de seringal a município em função da ferrovia e a sua desativação em 1972, representou um duro golpe para a sociedade local.
Ao discutirmos o Turismo como empreendimento viável social, cultural, ambiental e economicamente, sempre vem à tona a discussão oferta e mercado e como aproximá-los, notadamente em áreas de reconhecido desinteresse turístico. Este é o caso da cidade de Guajará-Mirim, situada a noroeste do estado de Rondônia, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia e às margens do rio Mamoré. Sua população diminuta, sua enorme distância de grandes centros e a ausência de infraestrutura a tornam uma cidade, aparentemente, pouco habilitada ao desenvolvimento da indústria turística. Contudo, alguns elementos culturais, a existência da cidade gemelar na Bolívia e seu considerável patrimônio natural, certamente são qualificações que não devem passar despercebida aos empreendedores, gestores públicos e sociedade local.    Neste breve estudo, procurarei refletir sobre os elementos culturais e naturais que possam impulsionar a vocação de destino turístico da cidade de Guajará-Mirim.

O Festival Folclórico de Guajará-Mirim, com o seu “Duelo da Fronteira” é uma disputa de Bois Bumbás estilizados, ao modelo de Parintins, que ocorre na cidade de Guajará-mirim desde 1995, embora a prática dos “folguedos de Bois” seja consideravelmente mais antiga na cidade, havendo referências às mesmas a partir dos anos 1930. O Duelo da Fronteira conta com uma ampla adesão de toda a população local, que estima e prestigia o evento. A disputa entre os Bois Flor do Campo e Malhadinho segue o mesmo padrão do bemsucedido evento de Parintins. O festejo ocorre no mês de setembro e recebe investimentos e aporte de recursos públicos estaduais para a sua realização.

Duelo da Fronteira em Guajará-Mirim - RO

                Ainda em relação às atividades vinculadas ao Turismo Cultural deve-se salientar o potencial adormecido do patrimônio ferroviário local, ligado á extinta Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Hoje tal patrimônio encontra-se abandonado e em lastimável estado de preservação. Contudo, fatores diversos o colocam em melhor situação do que o patrimônio ferroviário da capital Porto Velho. É notável a melhor condição de preservação e visitação do Museu Ferroviário, situado no centro da cidade, às margens do rio Mamoré e os trilhos instalados entre a cidade de Guajará-Mirim e o distrito do Iata, localizado há aproximadamente 30 km de distância. Com investimentos consideravelmente menores do que seriam necessários em Porto Velho, seria possível resgatar o passeio de Maria Fumaça, ao mesmo tempo em que se promoveria atividades de comércio turístico no distrito do Iata, cuja economia se encontra deprimida há longo tempo.

O Turismo Ambiental

Guajará-Mirim situa-se num contexto amazônico, sendo constituída por áreas de planície e chapadas florestadas e com manchas de cerrado. Esse ambiente natural, com diversas cachoeiras e corredeiras no rio Mamoré foram descrito como altamente impeditivo para o povoamento e a ocupação ocidental desde o século XVII. Cronistas, viajantes, militares e religiosos produziram textos sobre a adversidade ambiental. A uma natureza hostil somava-se uma vasta população indígena, também hostil.
                Tais fatores são considerados, atualmente, como potenciais promotores do turismo ecológico e ambiental. Tal prática fortaleceu-se a partir dos anos 1970/80 em todo o mundo, com a afirmação da consciência ambiental planetária. A região de Guajará-Mirim oferece condições muito favoráveis para esportes náuticos de caráter fluvial, festivais de praias fluviais, área para montanhismo e esportes radicais, trilhas, canoagem, observação de fauna e conhecimento de antigos seringais. Vale salientar que mais de 90% da área do município é constituída por reservas, parques e terras indígenas. No zoneamento socioeconômico e ambiental desenvolvido pelo PLANAFLORO na década de 1990, o município aparece como área de vocação turística ligado às questões ambientais.

Bons Exemplos 

Um exemplo positivo que podemos citar é o pleno funcionamento do complexo turístico ferroviário da cidade de Tiradentes em Minas Gerais. Em 1874, surgia a segunda ferrovia do Estado de Minas Gerais e a 13ª do Brasil - a Estrada de Ferro Leopoldina. Cinco anos depois, nascia a Estrada de Ferro Oeste de Minas - EFOM, inaugurada no dia 30 de setembro de 1880, ligando, a princípio, as cidades de Antônio Carlos , próximo a Barbacena, e Barroso.
Trecho ferroviário em funcionamento em Minas Gerais.

A EFOM foi considerada a ferrovia "mais" mineira, pois um ano após a inauguração, sua sede passou a ser Sâo João Del Rei, resultado do esforço realizado pela comunidade local para que a ferrovia chegasse até a cidade. Nessa época, por onde passava o trem já despertava o interesse e a emoção dos moradores. Alguns historiadores chegaram a considerar a Estrada de Ferro Oeste de Minas como a primeira ferrovia do estado, já que as demais possuíam suas sedes no Rio de Janeiro.
A ferrovia de São João del-Rei possuía características bastante peculiares, que a tornaram muito especial. Sua bitola estreita, de 76 centímetros, a fez herdar o carinhoso apelido de "Bitolinha". A ferrovia chegou a atingir 602 km de extensão e pode ser considerada uma das raízes do que viria a ser, anos mais tarde, a Ferrovia Centro-Atlântica FCA, herdeira da malha Centro-Leste brasileira, a partir do processo de desestatização da Rede Ferroviária Federal S.A., em 1º de setembro 1996.
Desde sua fundação, a ferrovia nunca parou de funcionar. O tráfego ferroviário nos 12 quilômetros do trecho entre São João Del Rei a cidade histórica de Tiradentes ainda atrai muitos turistas e moradores locais, interessados em viajar pela história, a bordo das centenárias locomotivas, oriundas da Estrada de Ferro Oeste de Minas.
O complexo Ferroviário de São João Del Rei - onde está localizado o Museu Ferroviário -, tombado pelo patrimônio histórico, em 3 de agosto de 1989, nos convida a fazer uma viagem da origem ao crescimento das ferrovias no Brasil. Uma história que vem, há mais de um século, acompanhando os acontecimentos do País e deixando saudosas lembranças na memória das famílias brasileiras. Uma história marcada, acima de tudo por cultura, arte e emoção.
Em Guajará-Mirim existem um equipamento museológico criado na década de 80 do século 20 para retratar parte do que foi o legado e a história da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. O Museu está instalado em um antiga Estação Ferroviária e possui cinco espaços. Três destinados a contar a história da cidade relacionado a ferrovia e outros dois com peças, artefatos e animais empalhados representando a fauna, a presença indígena e aspectos geográficos do lugar. No entorno do museu existe um antigo pátio ferroviário com duas locomotivas, uma delas em condições inadequadas de conservação. Uma segunda, denominada Máquina Cinco, passou recentemente por um processo de revitalização. Mas, percebemos que o ideal para a comunidade seria a reativação do passeio turístico de trêm pelos trilhos da ferrovia de Guajará-Mirim até o pequeno distrito do Iata no quilômetro 20. Temos exemplos em outras cidades do Brasil, que utilizam dos passeios turísticos ferroviários em pequenos trechos para gerar emprego e renda para as comunidades locais, no entorno dos trechos ferroviários.
A cidade possui uma boa relação com o Museu, comprovado nas visitações periódicas da população local, principalmente estudantes. O museu fica em lugar central da cidade no perímetro histórico e urbano do município estando em funcionamento entre terças-feiras e domingo, e têm em média segundo informações da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de Guajará-Mirim, média de 700 visitações semanais. O pico dessas vistas se concentram entre sexta e sábado com turistas de outros municípios que ao visitar a cidade para efetuar compras na fronteira (cidade boliviana) acabam por também se entreter no pequeno museu e conhecer o patrimônio histórico do lugar.
De todas as formas, tomando o patrimônio em sentido amplo, na hora da verdade estão ali materializados: as tradições, os costumes, os modos de ser e viver, mas, sobretudo, em cultura material, técnicas, artefatos e etc., nos quais estão os testemunhos palpáveis, das mais diversas culturas.
O estudo do patrimônio cultural implica uma contextualização social, econômica, histórica que esbarra no resgate da identidade seja em qual aspecto for. O círculo se completa quando o patrimônio se transforma em museu. “ Musealizar” a cultura material e imaterial significa recontextualizá-la, exigindo dos estudiosos responsáveis conhecimentos exaustivos dos objetos sem seu poder e do espaço que estes ocuparão nos museus, para representar com fidelidade o sentido que tal objeto representou no seu passado histórico.


Aleks Palitot
Professor e Historiador






[1] ANDRADE, José V., Turismo: fundamentos e dimensões. Pioneira; São Paulo, 1999, p.77.
[2] ANDRADE, José V., Turismo: fundamentos e dimensões. Pioneira; São Paulo, 1999, p.190.

[3] RATTNER, Henrique. Liderança para uma sociedade sustentável. Ed. Nobel; São Paulo, 1999.
[4] Localizada na Avenida Doutor Mendonça Lima, 555 – Centro em Guajará-Mirim. Visita realizada em dezembro de 2012 entre os dias 10 e 13.
[5] Localizada na Avenida Dr. Mendonça Lima, 231 – Centro em Guajará-Mirim. Visita realizada em dezembro de 2012 entre os dias 10 e 13.