quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Três Marias, história e patrimônio abandonados

Praça das Caixas D'água - Porto Velho.
Identidade seria, em linhas gerais, o sentido de pertencer que as pessoas trazem enquanto seres simbólicos que são. Esse ser de algum lugar pertence a algum grupo, sente afinidade com algo que lhe resgata algo seu; isto é chamado de identidade (BERRY, 1991). O conceito de identidade passa por diversas abordagens. A psicologia social e antropologia deslocaram seu enfoque para a questão da individualidade e os processos de perspectiva grupal, quando trata da identidade étnica e identidade social.
A identidade social pode ser compreendida como o conhecimento por parte do indivíduo, de que pertence a um determinado grupo social. Junto a isto está a significação valorativa e emocional de pertencer, sentir-se parte. Todo grupo necessita de uma cultura que os sustente para poder existir, vivenciada no sentido comum e repassada através da comunicação, para manter o sentido de pertencer entre seus integrantes.
Bandeira de Porto Velho. Criação de Antônio Cândido.
Quem nunca parou para tirar uma foto ao lado das Três Marias? Essas peças oriundas da ferrovia são símbolos de nossa cidade.  Elas estão na bandeira de Porto Velho e no brasão da nossa cidade. Já foi homenageada com carros alegóricos em carnavais, em peças de artesanatos, em pinturas, em músicas, e etc. Por que estão abandonadas? A última vez que as três marias foram revitalizadas foi na gestão do prefeito José Guedes no início da década de 90. Hoje o estado de nosso patrimônio cartão postal de nossa cidade é deplorável. Completo abandono e corre o risco de tombar pela ferrugem de suas bases de sustentação. Triste constatação que nosso símbolo, foi esquecido pelos gestores públicos que não entenderam ser importante a revitalização daquele espaço de encontro com nossa história e identidade.
Bairro Caiari onde está localizado as Tês Marias.
As três Caixas d’ água possuem capacidade para armazenar 200 mil litros cada. O projeto de execução dessa obra foi da Chicago Bridge Iron Works. Construídas pela May, Jekll y Randolph durante a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Em1910 temos apenas uma caixa d’água que entra em funcionamento dia 30 de novembro segundo informações contidas no livro “ Ferrovia do Diado” de FERREIRA, e em 1912 é concluída a montagem de mais duas. Essas caixas d’água, pintadas de preto, tinham tampas pintadas de branco, durante muito tempo abasteceram a cidade de Porto Velho, quando em 1957 foram desativadas. Foi tombada como patrimônio histórico em 1988.  

Três Caixas D'água - Patrimônio histórico de Porto Velho - RO
Ao discutirmos o Turismo como empreendimento viável social, cultural, ambiental e economicamente, sempre vem à tona a discussão oferta e mercado e como aproximá-los, notadamente em áreas de reconhecido desinteresse turístico.  Como falar em turismo em Porto Velho quando os nossos possíveis pontos para tal atividade estão abandonados? Precisamos fazer o dever de casa. Só assim, com políticas públicas adequadas poderemos fazer o melhor por nossa cidade com Economia Criativa e Social, gerando emprego, renda, sustentabilidade e pertencimento.   

Aleks Palitot
Professor e Historiador


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Guajará-Mirim, o turismo como fator de desenvolvimento local e sustentável

Hotel de Selva em Guajará-Mirim.

O que é entendido por natureza não é natureza em si, mas a imagem que se faz dela. Essa imagem altera-se no decorrer do tempo, pois o entendimento é uma construção humana produzida pela cultura dos povos. As conjunturas culturais, pelo seu dinamismo, estão sempre sendo modificadas, e com elas modificam-se também as formas de percebermos e compreendermos a natureza. Dependendo do momento histórico e das conjunturas decorrentes, teremos conceitos, imagens, interpretações e formas de relacionamento diferentes com a natureza.
A sensibilização diante das questões ambientais presentes em nossa sociedade atual tem gerado uma preocupação cada vez maior em relação ao meio ambiente e uma nova postura perante ele, por isso, a sustentabilidade aliada a proposta turística para uma comunidade pode ser um mecanismo viável de relação da sociedade com o meio ambiente. O turismo sustentável tem estado presente em todas as novas orientações turísticas, como pode-se observar na Política Nacional de Turismo no Brasil em curso, que privilegia essa forma de desenvolvimento.

Festa do Divino no Vale do Guaporé e Mamoré.

No que diz respeito ao turismo religioso, este é uma modalidade que movimenta um grande número de peregrinos em uma viagem pelos mistérios da fé e da devoção a algum santo. Andrade[1] denomina o turismo religioso como: “ o conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas a lugares ou regiões que despertam sentimentos místicos ou suscitam a fé, a esperança e a caridade nos fiéis de qualquer tipo ou em pessoas vinculadas a religião”. Ressalvado o turismo de férias e o turismo de negócios, Andrade diz que o tipo de turismo que mais cresce é o religioso, porque além dos aspectos míticos e dogmáticos, as religiões assumem o papel de agentes culturais pelas manifestações de proteção a valores antigos, de intervenção na sociedade atual e de prevenção no que diz respeito ao futuro dos indivíduos e das sociedades.
Em Pirenópolis em Goiás, onde ocorre os festejos do Divino Espírito Santo. A cidade vive o fluxo  de romeiros que vivem uma semana de festividade gerando assim arrecadação no município através da prestação de serviços dos hotéis, restaurantes e comércio em geral. Entendemos que estes exemplos podem servir como inspiração para o melhor aproveitamento dos festejos do Divino Espírito Santo em Guajará-Mirim, que além de ser uma festa centenária, possui alguns ingredientes interessantes por se tratar na única festa fluvial do gênero no mundo e de se situar na Amazônia.
Entendemos ser válido uma reflexão sobre uma restruturação econômica, de políticas públicas e estratégias de desenvolvimento local. A valorização do poder local é retomada na década de 80 no Brasil a partir do debate de descentralização, pacto federativo e reforma do Estado. No campo de disputa na sociedade sobre os caminhos destes projetos, algumas prefeituras desenvolveram um projeto inovador de democratização do poder local, que hoje incorpora como ação modernizadora de ação municipal. Entre os pontos relevantes destas a serem citados são: Inverter Prioridades de Governo em relação às formas tradicionais de governar, direcionando nossos recursos – humanos e financeiros – para áreas mais carentes. Recuperar a qualidade do serviço público e garantir a igualdade de acesso aos serviços urbanos básicos.
Contudo, para além e aprofundamento o debate de democratização do poder local, o processo de reestruturação econômica tem colocado novas necessidades e novos papéis para os municípios, em particular no campo de uma ação econômica e de geração de renda.
O papel dos municípios como agentes de promoção de desenvolvimento econômico está hoje também ligado a crise do padrão de acumulação fordista e as novas formas de flexibilização geradas em seu interior. O processo de reestruturação econômica rompe com as integrações regionais, compartilhadas horizontalmente, e criam possibilidades de novas integrações do município.
Pensamos que a resposta aos impactos da globalização sugere a necessidade de ações públicas locais, objetivando uma integração não subordinada, que privilegie as questões sociais e a construção do espaço da cidadania a partir de forças econômicas e sociais locais e regionais. Por isso o desenvolvimento sustentável privilegiando as riquezas culturais, históricas e naturais existentes podem ser um caminho para proporcionar um maior empoderamento financeiro para a comunidade de Guajará-Mirim, com a eliminação da tensão entre localidades está na constituição de novos arranjos políticos/financeiros/institucionais capazes de viabilizar projetos locais e regionais. Considerar que o desenvolvimento local consiste em potencializar o desenvolvimento socioeconômico tomando como base principal a mobilização de recursos humanos financeiros locais.   
O município de Guajará-Mirim além de possuir um complexo histórico de grande importância para o Estado de Rondônia, como é o caso da Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (museu) e suas locomotivas, também é detentora de uma grande área de reserva ambiental, além claro que paisagens de belezas cênicas. Em suma, sendo também um caminho natural o ecoturismo, que não é apenas o ramo da indústria turística que mais cresce rapidamente[2]; ele também é considerado tanto novo e promissor instrumento para preservar áreas naturais frágeis e ameaçadas quanto um meio de propiciar oportunidades para o desenvolvimento das comunidades dos países em desenvolvimento.
O ecoturismo genuíno deve basear-se em uma perspectiva de sistemas que inclua sustentabilidade e a participação da população local, naquelas regiões onde o maior potencial para o desenvolvimento de atividades ecoturísticas pode ser encontrado. O ecoturismo deve ser encarado como um cooperativo entre população local e visitantes conscientes e preocupados em preservar áreas naturais e seus patrimônios culturais e biológicos, através do apoio ao desenvolvimento da comunidade local. Por desenvolvimento da comunidade entenda-se conferir poderes aos grupos locais para controlar e gerenciar reservas, mas que também satisfaçam as necessidades econômicas, sociais e culturais do grupo.

Turismo religioso e a festa do Divino Espírito Santo

O Turismo Religioso trabalha com as mais diversas manifestações da fé e da busca pelo espiritual. Diversas regiões do mundo movimentam milhões de pessoas a cada ano em função de romarias, peregrinações, excursões e eventos religiosos múltiplos. Tais práticas ocorrem em todas as sociedades com maior ou menor intensidade.
 Acredita-se que em todo mundo mais de meio milhão de pessoas desloquem-se anualmente para visitações, peregrinações e eventos religiosos. No Brasil a EMBRATUR situa em mais de 15 milhões o número de pessoas que viajam por motivações religiosas diversas. 
“O turismo religioso pode contribuir para a valorização e a preservação das práticas espirituais, enquanto manifestações culturais e de fé as quais identificam determinados grupos humanos, assim como oferecer condições para um desenvolvimento positivo na economia, na cultura e na qualidade de vida da população local. A partir dessas possibilidades, através desta pesquisa, a intenção foi buscar a identificação de locais que possuem significado religioso, evidenciando que o mesmo, uma vez planejado, pode se transformar em espaços com potencial para o desenvolvimento de atividades voltadas à prática do turismo religioso, com base nos princípios da sustentabilidade cultural”
Para termos uma referência da importância do turismo religioso, iremos comparar a Festa do Divino de Guajará-Mirim com a mesma Festa que acontece na cidade de Pirenópolis no Estado de Goiás.


Festa do Divino em Pirenópolis em Goiás.

A Festa do Divino em Pirenópolis é a mais significativa de todas as festas do gênero no Brasil.  Doze dias de festa na manifestação popular mais importante da cidade. A festa do Divino Espírito Santo, comemorada em Pirenópolis desde 1819, reúne desfiles das bandas de música, queima de fogos, congadas, bailes, entre outros eventos.
Mesmo com um PIB elevado em comparação a Pirenópolis, a cidade de Guajará-Mirim não consegue transformar essa perspectiva de desenvolvimento em qualidade de vida para seus munícipes. Diferente da ideia de crescimento – que sugere principalmente aumento em quantidade, a de desenvolvimento implica mudança de qualidade de vida e, também, o aumento dos graus de complexidade, integração e coordenação de um sistema. Uma análise de como tem evoluído o conceito de desenvolvimento pode ser feita pelas mudanças dos indicadores utilizados para medi-lo.
Julgava-se poder medir o desenvolvimento de uma sociedade pelo nível da produção e do consumo de bens de serviço, por meio de indicadores como Produto Interno Bruto – PIB Nacional. Foi com base no PIB per capita que os países foram classificados em desenvolvidos ou não, pela ONU. Ocorre que, como frisa Rattner[3], a taxa do PIB oculta tanto condições críticas de vida humana como dos ecossistemas naturais. De alguns anos para cá, por reconhecimento da insuficiência dos parâmetros econômicos para avaliar o desenvolvimento dos países a ONU está calculando o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH que considera três dimensões: saúde, educação e renda.


Imbuído de atender uma necessidade da pesquisa, buscamos nos arquivos da sede da Igreja Nossa Senhora do Seringueiro[4], em Guajará-Mirim, e na Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo – SEMCET[5], dados e informações históricas sobre um dos ventos culturais e religiosos mais antigos da região. A Festa do Divino teve sua origem em Portugal e foi estabelecida pela rainha Dª Isabel, casada com o Rei D. Diniz, por volta das primeiras décadas do século XIV. Na oportunidade a Rainha vivenciara no paço real uma briga familiar entre o Rei D. Diniz e seu filho. Por isso, ela teria feito uma promessa, caso a paz voltasse a reinar na corte e em sua família, que ela faria uma réplica da sua coroa e do cetro e os enviaria como cumprimento de tal promessa ao Divino às regiões pertencentes ao Reino de Portugal.
A Festa do Divino Espírito Santo, em suas diversas manifestações, é uma das mais antigas e difundidas práticas do catolicismo popular. Sua origem, conforme dito, remonta às celebrações realizadas em Portugal a partir do século XIV, nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes e distribuição de esmolas aos pobres. Essas celebrações aconteciam 50 dias após a páscoa, comemorando o Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu do céu sobre os apóstolos de Cristo sob forma de línguas de fogo, segundo nos conta o Novo Testamento.


Batelão do Divino Espírito Santo nas proximidades de Guajará - Mirim.

Em Rondônia, a Festa do Divino tem expressividade no Vale do Guaporé, onde a população ribeirinha procurou manter viva a tradição do festejo. O culto do Divino Espírito Santo foi introduzido no Guaporé, por volta de 1894, pelo senhor Manuel Fernandes Coelho, quando de sua mudança de Vila Bela do Mato Grosso para a localidade de Ilhas das Flores. Naquele ano, o senhor Manoel Fernandes fez vir de Vila Bela da Santíssima Trindade a Coroa de prata e, juntamente com outros adeptos, realizou os festejos do Divino naquela localidade. Todos os anos posteriores até o ano de 1932, o Divino foi festejado naquela localidade, sendo, então, os festejos transferidos para Rolim de Moura. Após o encerramento da festa, a comissão da Irmandade do Divino, junto com seus membros e presidente se reúnem para fazer o sorteio da cidade que sediará o próximo evento, ficando assim acertado e logo começam os preparativos para a festa do ano seguinte, que segundo (Malon 2014).

 Turismo Histórico

 A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e seu museu uma das mais significativas edificações da cidade de Guajará-Mirim é o prédio que serviu de estação ferroviária e que hoje abriga o Museu Histórico Municipal de Guajará-Mirim. A edificação data da primeira metade do século XX e este museu está localizada no prédio da antiga estação ferroviária de Guajará-Mirim, em Rondônia. Durante um longo período seu estado de conservação foi caótico. A situação tornou-se muito grave com a grande cheia de 1914, quando as águas do rio Mamoré chegaram até a edificação. A recuperação do prédio custou aos cofres públicos o equivalente a 450 mil reais e foi bancada pelos governos federal e estadual, através da Superintendência de Turismo.  
Museu Municipal de Guajará-Mirim antiga Estação Ferroviária.

A estação de Guajará-Mirim era o ponto final da Ferrovia Madeira-Mamoré, localizada no quilômetro 366 daquela estrada ferroviária. Foi inaugurada em 30 de abril de 1912 e extinta em 10 de julho de 1972. A obra teve uma história conturbada e custou milhares de vida e milhões de dólares aos governos da Bolívia e, posteriormente do Brasil, que pelo Tratado de Petrópolis (1903) assumiu seus custos e a sua construção. Guajará-Mirim ergueu-se de seringal a município em função da ferrovia e a sua desativação em 1972, representou um duro golpe para a sociedade local.
Ao discutirmos o Turismo como empreendimento viável social, cultural, ambiental e economicamente, sempre vem à tona a discussão oferta e mercado e como aproximá-los, notadamente em áreas de reconhecido desinteresse turístico. Este é o caso da cidade de Guajará-Mirim, situada a noroeste do estado de Rondônia, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia e às margens do rio Mamoré. Sua população diminuta, sua enorme distância de grandes centros e a ausência de infraestrutura a tornam uma cidade, aparentemente, pouco habilitada ao desenvolvimento da indústria turística. Contudo, alguns elementos culturais, a existência da cidade gemelar na Bolívia e seu considerável patrimônio natural, certamente são qualificações que não devem passar despercebida aos empreendedores, gestores públicos e sociedade local.    Neste breve estudo, procurarei refletir sobre os elementos culturais e naturais que possam impulsionar a vocação de destino turístico da cidade de Guajará-Mirim.

O Festival Folclórico de Guajará-Mirim, com o seu “Duelo da Fronteira” é uma disputa de Bois Bumbás estilizados, ao modelo de Parintins, que ocorre na cidade de Guajará-mirim desde 1995, embora a prática dos “folguedos de Bois” seja consideravelmente mais antiga na cidade, havendo referências às mesmas a partir dos anos 1930. O Duelo da Fronteira conta com uma ampla adesão de toda a população local, que estima e prestigia o evento. A disputa entre os Bois Flor do Campo e Malhadinho segue o mesmo padrão do bemsucedido evento de Parintins. O festejo ocorre no mês de setembro e recebe investimentos e aporte de recursos públicos estaduais para a sua realização.

Duelo da Fronteira em Guajará-Mirim - RO

                Ainda em relação às atividades vinculadas ao Turismo Cultural deve-se salientar o potencial adormecido do patrimônio ferroviário local, ligado á extinta Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Hoje tal patrimônio encontra-se abandonado e em lastimável estado de preservação. Contudo, fatores diversos o colocam em melhor situação do que o patrimônio ferroviário da capital Porto Velho. É notável a melhor condição de preservação e visitação do Museu Ferroviário, situado no centro da cidade, às margens do rio Mamoré e os trilhos instalados entre a cidade de Guajará-Mirim e o distrito do Iata, localizado há aproximadamente 30 km de distância. Com investimentos consideravelmente menores do que seriam necessários em Porto Velho, seria possível resgatar o passeio de Maria Fumaça, ao mesmo tempo em que se promoveria atividades de comércio turístico no distrito do Iata, cuja economia se encontra deprimida há longo tempo.

O Turismo Ambiental

Guajará-Mirim situa-se num contexto amazônico, sendo constituída por áreas de planície e chapadas florestadas e com manchas de cerrado. Esse ambiente natural, com diversas cachoeiras e corredeiras no rio Mamoré foram descrito como altamente impeditivo para o povoamento e a ocupação ocidental desde o século XVII. Cronistas, viajantes, militares e religiosos produziram textos sobre a adversidade ambiental. A uma natureza hostil somava-se uma vasta população indígena, também hostil.
                Tais fatores são considerados, atualmente, como potenciais promotores do turismo ecológico e ambiental. Tal prática fortaleceu-se a partir dos anos 1970/80 em todo o mundo, com a afirmação da consciência ambiental planetária. A região de Guajará-Mirim oferece condições muito favoráveis para esportes náuticos de caráter fluvial, festivais de praias fluviais, área para montanhismo e esportes radicais, trilhas, canoagem, observação de fauna e conhecimento de antigos seringais. Vale salientar que mais de 90% da área do município é constituída por reservas, parques e terras indígenas. No zoneamento socioeconômico e ambiental desenvolvido pelo PLANAFLORO na década de 1990, o município aparece como área de vocação turística ligado às questões ambientais.

Bons Exemplos 

Um exemplo positivo que podemos citar é o pleno funcionamento do complexo turístico ferroviário da cidade de Tiradentes em Minas Gerais. Em 1874, surgia a segunda ferrovia do Estado de Minas Gerais e a 13ª do Brasil - a Estrada de Ferro Leopoldina. Cinco anos depois, nascia a Estrada de Ferro Oeste de Minas - EFOM, inaugurada no dia 30 de setembro de 1880, ligando, a princípio, as cidades de Antônio Carlos , próximo a Barbacena, e Barroso.
Trecho ferroviário em funcionamento em Minas Gerais.

A EFOM foi considerada a ferrovia "mais" mineira, pois um ano após a inauguração, sua sede passou a ser Sâo João Del Rei, resultado do esforço realizado pela comunidade local para que a ferrovia chegasse até a cidade. Nessa época, por onde passava o trem já despertava o interesse e a emoção dos moradores. Alguns historiadores chegaram a considerar a Estrada de Ferro Oeste de Minas como a primeira ferrovia do estado, já que as demais possuíam suas sedes no Rio de Janeiro.
A ferrovia de São João del-Rei possuía características bastante peculiares, que a tornaram muito especial. Sua bitola estreita, de 76 centímetros, a fez herdar o carinhoso apelido de "Bitolinha". A ferrovia chegou a atingir 602 km de extensão e pode ser considerada uma das raízes do que viria a ser, anos mais tarde, a Ferrovia Centro-Atlântica FCA, herdeira da malha Centro-Leste brasileira, a partir do processo de desestatização da Rede Ferroviária Federal S.A., em 1º de setembro 1996.
Desde sua fundação, a ferrovia nunca parou de funcionar. O tráfego ferroviário nos 12 quilômetros do trecho entre São João Del Rei a cidade histórica de Tiradentes ainda atrai muitos turistas e moradores locais, interessados em viajar pela história, a bordo das centenárias locomotivas, oriundas da Estrada de Ferro Oeste de Minas.
O complexo Ferroviário de São João Del Rei - onde está localizado o Museu Ferroviário -, tombado pelo patrimônio histórico, em 3 de agosto de 1989, nos convida a fazer uma viagem da origem ao crescimento das ferrovias no Brasil. Uma história que vem, há mais de um século, acompanhando os acontecimentos do País e deixando saudosas lembranças na memória das famílias brasileiras. Uma história marcada, acima de tudo por cultura, arte e emoção.
Em Guajará-Mirim existem um equipamento museológico criado na década de 80 do século 20 para retratar parte do que foi o legado e a história da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. O Museu está instalado em um antiga Estação Ferroviária e possui cinco espaços. Três destinados a contar a história da cidade relacionado a ferrovia e outros dois com peças, artefatos e animais empalhados representando a fauna, a presença indígena e aspectos geográficos do lugar. No entorno do museu existe um antigo pátio ferroviário com duas locomotivas, uma delas em condições inadequadas de conservação. Uma segunda, denominada Máquina Cinco, passou recentemente por um processo de revitalização. Mas, percebemos que o ideal para a comunidade seria a reativação do passeio turístico de trêm pelos trilhos da ferrovia de Guajará-Mirim até o pequeno distrito do Iata no quilômetro 20. Temos exemplos em outras cidades do Brasil, que utilizam dos passeios turísticos ferroviários em pequenos trechos para gerar emprego e renda para as comunidades locais, no entorno dos trechos ferroviários.
A cidade possui uma boa relação com o Museu, comprovado nas visitações periódicas da população local, principalmente estudantes. O museu fica em lugar central da cidade no perímetro histórico e urbano do município estando em funcionamento entre terças-feiras e domingo, e têm em média segundo informações da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de Guajará-Mirim, média de 700 visitações semanais. O pico dessas vistas se concentram entre sexta e sábado com turistas de outros municípios que ao visitar a cidade para efetuar compras na fronteira (cidade boliviana) acabam por também se entreter no pequeno museu e conhecer o patrimônio histórico do lugar.
De todas as formas, tomando o patrimônio em sentido amplo, na hora da verdade estão ali materializados: as tradições, os costumes, os modos de ser e viver, mas, sobretudo, em cultura material, técnicas, artefatos e etc., nos quais estão os testemunhos palpáveis, das mais diversas culturas.
O estudo do patrimônio cultural implica uma contextualização social, econômica, histórica que esbarra no resgate da identidade seja em qual aspecto for. O círculo se completa quando o patrimônio se transforma em museu. “ Musealizar” a cultura material e imaterial significa recontextualizá-la, exigindo dos estudiosos responsáveis conhecimentos exaustivos dos objetos sem seu poder e do espaço que estes ocuparão nos museus, para representar com fidelidade o sentido que tal objeto representou no seu passado histórico.


Aleks Palitot
Professor e Historiador






[1] ANDRADE, José V., Turismo: fundamentos e dimensões. Pioneira; São Paulo, 1999, p.77.
[2] ANDRADE, José V., Turismo: fundamentos e dimensões. Pioneira; São Paulo, 1999, p.190.

[3] RATTNER, Henrique. Liderança para uma sociedade sustentável. Ed. Nobel; São Paulo, 1999.
[4] Localizada na Avenida Doutor Mendonça Lima, 555 – Centro em Guajará-Mirim. Visita realizada em dezembro de 2012 entre os dias 10 e 13.
[5] Localizada na Avenida Dr. Mendonça Lima, 231 – Centro em Guajará-Mirim. Visita realizada em dezembro de 2012 entre os dias 10 e 13.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Brasil virou República

Rui Barbosa e Marechal Deodoro entregando a Constituição para a República.
O quinze de novembro é uma data sem prestígio no calendário cívico brasileiro. Ao contrário do Sete de Setembro, Dia da Independência, comemorado em todo o país com desfiles escolares e militares, o feriado da Proclamação da República é uma festa tímida, geralmente ignorada pela maioria das pessoas. Sua popularidade nem de longe se compara à de algumas celebrações regionais, como o Dois de Julho na Bahia, o Treze de Março no Piauí, o Vinte de Setembro no Rio Grande do Sul ou o Nove de Julho em São
Paulo. Essas efemérides exaltam vitórias, confrontos ou revoltas locais, respectivamente a expulsão dos portugueses de Salvador; a Batalha do Jenipapo no sertão piauiense ao final da Guerra da Independência; o início da Revolução Farroupilha; e a Revolução Constitucionalista liderada pelos paulistas em 1932.
São eventos históricos que nem todos os brasileiros conhecem, porém com os quais a população local fortemente se identifica. Isso não ocorre com a data da criação da República brasileira.

Personagens republicanos como Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto são nomes onipresentes em praças e ruas das cidades brasileiras, mas pergunte a qualquer estudante do ensino médio quem foram esses homens e a resposta certamente demorará a vir.
Nas escolas ensina-se mais sobre o português Pedro Álvares Cabral, descobridor das terras de Santa Cruz, como o Brasil ainda era conhecido em 1500, ou Tiradentes, o herói da Inconfidência Mineira de 1789, do que sobre os criadores da República, episódio bem mais recente, ocorrido há pouco mais de um século.
Marechal Deodoro primeiro presidente do Brasil.
A história republicana é menos conhecida, menos estudada e ainda menos celebrada do que os heróis e eventos do Brasil monárquico e imperial, que cobrem um período relativamente mais curto, de apenas 67 anos.
A julgar pela memória cívica nacional, o Brasil tem uma República mal-amada.
Esse estranho fenômeno de indiferença coletiva encontra explicações na forma como se processou a troca de regime. O dia 15 de novembro de 1889 amanheceu repleto de promessas cujo significado na época as massas pobres, analfabetas e recém-saídas da escravidão desconheciam. Nas proclamações e discursos dos propagandistas republicanos, anunciava-se o fim da tirania representada pelo “poder pessoal” do imperador Pedro II. Dizia-se que um carcomido sistema de castas e privilégios, herdado ainda da época da colonização portuguesa, acabava de ser posto por terra. Na nova era de prosperidade geral, inaugurada pela República, a construção de um futuro glorioso estava ao alcance das mãos. Haveria menos injustiça e mais oportunidades gerais. Chamados a participar da condução dos destinos nacionais, todos os brasileiros teriam, finalmente, vez, voz e voto.
Havia, porém, uma contradição entre as promessas e a realidade daquele momento.

Diferentemente do que faziam supor os discursos e anúncios oficiais, a República brasileira não resultou de uma campanha com intensa participação popular. Em vez disso, foi estabelecida por um golpe militar com escassa e tardia participação das lideranças civis. Apesar da intensa propaganda republicana por meio de imprensa, panfletos, reuniões e comícios, a ideia da mudança de regime político não deslanchava na população. Na última eleição parlamentar do Império, realizada em 31 de agosto de 1889, o Partido Republicano elegeu somente dois deputados e nenhum senador. Os votos colhidos pelos seus candidatos em todo o país não chegaram a 15% do total apurado. O resultado era pior do que o obtido quatro anos antes, no pleito de 1885, quando foram eleitos para a Câmara três deputados republicanos, entre eles os futuros presidentes da República Prudente de Morais (1894-1898) e Campos Salles (1898-1902). Sem eco nas urnas, os civis encontraram nos militares o elemento de força que lhes faltava para a mudança do regime. A República brasileira nasceu descolada das ruas. “O povo assistiu àquilo bestializado”, segundo uma famosa frase do jornalista Aristides Lobo, testemunha dos acontecimentos.
Proclamação da República no Campo de Santana no Rio de Janeiro.
Outra incongruência aparece na maneira como essa história vem sendo contada. “Um passeio militar” é a descrição mais comum que se vê nos livros sobre a Proclamação da República. A facilidade com que se derrubou um regime e se proclamou outro na manhã de 15 de novembro, sem reação popular, sem troca de tiros, sem protestos, parecia confirmar, uma vez mais, o mito de que as transformações políticas brasileiras se processam sempre de forma pacífica. Essa imagem, no entanto, se desfoca por completo quando se avança um pouco no calendário. Derrubada a Monarquia, o sonho de liberdade e ampliação dos direitos rapidamente se dissipou. Em alguns anos, o país estava mergulhado na ditadura sob o comando de Floriano Peixoto, o “Marechal de
Ferro”, a quem ainda hoje se atribui o papel de salvador da República.
O sangue que deixou de correr em 1889 verteu em profusão nos dez anos seguintes, resultado do choque entre as expectativas e a realidade do novo regime. Duas guerras civis, somadas à Revolta da Armada, deixariam marcas profundas no imaginário brasileiro. No sul, os dois anos e meio de combates da Revolução Federalista custaram a vida de mais de 10 mil pica-paus e maragatos, como eram chamados os combatentes dos dois lados do conflito. No sertão da Bahia, o sacrifício épico da vila de Canudos resultou na morte de outras 25 mil pessoas e uma história de humilhação para o Exército brasileiro, derrotado em três expedições consecutivas por um bando de jagunços e sertanejos pobres e mal-armados, sob a liderança messiânica de Antônio Conselheiro, ao qual se atribuía, erroneamente, a ameaça de restauração da Monarquia. Somadas as 35 mil vítimas, a República pagou em sangue um preço infinitamente maior do que a Guerra da Independência, cujo número de mortos teria ficado entre 2 mil e 3 mil combatentes brasileiros e portugueses.
Imperador D. Pedro II
As feridas abertas nesses conflitos marcaram profundamente a primeira fase republicana brasileira, na qual os militares tentaram organizar o novo regime mediante censura à imprensa, o Parlamento fechado mais de uma vez, a prisão e a deportação de opositores políticos para os confins da Amazônia. A devolução do poder aos civis, com Prudente de Morais e Campos Salles, respectivamente terceiro e quarto presidentes, nem por isso aproximaria o poder das ruas. A chamada República Velha, período que vai até 1930, se caracterizaria por uma equação política muito semelhante à dos últimos anos do Império. No lugar dos barões do café do Vale do Paraíba, entravam os fazendeiros do oeste Paulista e de Minas Gerais. Por algum tempo, o número de eleitores diminuiu em relação ao total de votantes registrado nos anos finais do Império. Nesta República — também conhecida como “dos Governadores” ou “do Café com Leite” — não haveria lugar para o povo, tanto quanto não havia na dos militares de 1889. Quem mandava era a mesma aristocracia rural que havia dado as cartas na época da Monarquia.
Princesa Isabel e o Imperador D. Pedro II.
A estranheza entre as promessas e a prática republicanas esclarece, em parte, a atual falta de prestígio do Quinze de Novembro no calendário cívico nacional.
Na versão dos derrotados, ao contrário, o Império, ao invés de ruína, teria sido a salvação do Brasil. Sem a Monarquia, argumentam, o país teria fatalmente se fragmentado na época da Independência, em três ou quatro nações autônomas que hoje herdariam como denominador comum apenas suas raízes coloniais e a língua portuguesa. Ao imperador caberia o papel de manter o Brasil unido, apaziguar os conflitos, tratar com tolerância e generosidade os adversários, além de converter um território selvagem e escassamente habitado num país integrado e respeitado entre as demais nações. Por essa perspectiva, a Monarquia teria raízes culturais e históricas mais profundas do que a República na nacionalidade brasileira, com força suficiente para enfrentar os desafios do futuro, caso não tivesse sido abortada por uma traiçoeira quartelada na manhã de 15 de novembro de 1889.
Guerra do Paraguai em 1869 - Batalha do Avaí. 
Em seu estudo sobre a Proclamação da República, o historiador pernambucano José Maria Bello demonstrou que republicanos civis e militares foram apenas parte das forças que, direta ou indiretamente, contribuíram para a queda do Império. Uma delas — e talvez a mais forte — era composta dos próprios monarquistas, “para os quais o Império perdera o derradeiro encanto”. Esse “vasto e perigoso partido dos derrotados” incluía os liberais, os reformadores, os abolicionistas e os federalistas — gente como o pernambucano Joaquim Nabuco e o baiano Rui Barbosa, que, até as vésperas do Quinze de Novembro, mantinham-se de certa forma fiéis à Monarquia, mas exigiam dela reformas capazes de dar alguma sobrevida ao regime. Havia também o grupo dos “desgostosos e displicentes”, como os fazendeiros feridos pela abolição da escravatura. Todos esses grupos, direta ou indiretamente, juntaram forças para dar o empurrão fatal que selaria o destino do Império brasileiro. Some-se a isso o descontentamento reinante nos quartéis desde o final da Guerra do Paraguai, fator decisivo na queda da Monarquia. Oficiais e soldados consideravam-se injustiçados pelo governo do Império. Daí a conferir carta branca ao marechal Deodoro da Fonseca para derrubar o trono foi apenas um passo. “A intervenção militar na política e na sociedade é sinal de fraqueza tanto do Estado como da sociedade”, observou o historiador norte-americano Frank D. McCann, autor de Soldados da pátria, um alentado estudo sobre a história do Exército brasileiro.“O sentimento mais generalizado não era o da crença na República, mas sim o de descrença nas instituições monárquicas”, registrou o brasileiro Oliveira Vianna ao refletir sobre as promessas do Brasil monárquico, com suas instituições liberais, os rituais da nobreza e seus palácios de cristal em Petrópolis, e a dura realidade da escravidão, do analfabetismo e da fraude eleitoral.

O Império brasileiro caiu inerte, incapaz de mobilizar forças e reagir contra o golpe liderado por Deodoro. Apesar de todas as evidências de uma conspiração em andamento, o imperador Pedro II permaneceu em Petrópolis até a tarde de 15 de novembro, ignorando os conselhos para que reagisse de alguma forma. Ao chegar ao Rio de Janeiro, perdeu um longo e precioso tempo, acreditando ingenuamente que no final tudo voltaria ao normal. “Conheço os brasileiros, isso não vai dar em nada”, teria dito naquele dia. Só na madrugada de 16 de novembro, quando o governo provisório republicano já estava anunciado, é que dom Pedro reuniu seus conselheiros mais próximos e tentou em vão organizar um novo ministério. Já era tarde. Nas províncias, a única reação em favor da Monarquia ocorreu na Bahia, surpreendentemente liderada pelo marechal Hermes Ernesto da Fonseca, comandante de Armas de Salvador e irmão de Deodoro. Ao receber as notícias do golpe no Rio de Janeiro, Hermes da Fonseca anunciou que permaneceria fiel ao imperador. Capitulou algumas horas mais tarde ao saber que o próprio irmão liderava a conjura republicana e que dom Pedro II, àquela altura, já estava a caminho do exílio na Europa. “Na verdade, a monarquia não foi derrubada, ela desmoronou”, anotou o jornalista francês Max Leclerc, que percorria o Brasil na época. “Qualquer que seja o futuro, para nós, que cremos na nação forte e indivisível, é consolador ver os obstáculos vencidos”, observou certa vez o historiador Américo Jacobina Lacombe. “Isso nos anima a entrever um futuro justo e próspero”.

Aleks Palitot
Professor e Historiador 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Porto Velho uma história


Primeiros passos da construção da E.F.M.M. hoje Porto Velho, 1907-12.
“Nascestes ao calor das oficinas do Parque da Madeira Mamoré, pela forja dos bravos pioneiros, imbuídos de coragem e fé”.
Esse trecho é parte do hino de Porto Velho, letra de C. Feitosa, hino que talvez poucos nascidos em Porto Velho teriam conhecimento. Por isso, lembra da instalação de administrativa de nossa cidade é tão importante. São nessas datas que levamos os cidadãos de Rondônia a conhecerem um pouco mais de nossa história, e assim refletir sobre a história de nossos pioneiros.
Com a construção do Centro Administrativo da empresa construtora da ferrovia no antigo Porto Velho Militar, logo nas imediações os trabalhadores iniciaram a construção de suas casas para o lado que dava para Santo Antônio. Em 1913 criava-se a Vila de Porto Velho, e já no dia 2 de outubro de 1914 era publicada a lei número 757, criando o município de Porto Velho. Com o decreto assinado pelo Dr. Jonathas Pedrosa, governador do Estado do Amazonas, no dia 24 de janeiro de 1915, instala-se solenemente, e era considerado município autônomo, sendo o seu superintendente (prefeito) o Major do Exército Fernando Guapindáia de Souza Brejense, e intendentes, e suplentes, José Jorge e Braga Vieira, Luziano Barreto, Manoel Félix de Campos, Antônio Sampaio, José Camargo Achiles Reis, Alderico Castilho, José Pontes e como secretário, Sr. Manoel Pires de Castro.
A cidade na opinião de Oswaldo Cruz era “um cenário desordenado” de 800 habitantes. Todos os barracos eram de madeira, inclusive os grandes barracões da companhia construtora que ficavam sobre pilares de alvenaria e cobertura de telhas francesas; outros eram cobertos com zinco e sobre esteios de quariquara ou itaúba, preferencialmente, sendo a grande maioria improvisadas cabanas de palha. Enquanto isso no Clube Internacional (hoje Ferroviário) mulheres e homens dançavam o fox ao son de jazz; rubicundos ingleses vestidos de branco, a beber uísque; alemães ingênuos e sorridentes, servindo chopp com avidez; francesas de Marselha, com admirável eroísmo profissional, sorrindo acintosas e convidativas aos peões.

O PRIMEIRO PREFEITO

O governo de Guapindaia foi marcado por uma série de desentendimentos com os administradores da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, pois a ferrovia gozava de isenção de impostos estaduais e municipais, além de ser detentora de grandes porções de terras destinadas ao uso da ferrovia.

Primeiro Prefeito de Porto Velho - Major Guapindaia, 1914.
Como anteriormente a palavra do superintendente da Estrada de Ferro era lei, sendo que até a distribuição de lotes para a construção era, no entender dos administradores da ferrovia, da sua alçada, o major Guapindaia sentiu-se ferido em seus brios naturalmente reagindo e tendo como resposta inicial o cancelamento “ do passe grátis” que lhe fornecia a Madeira Mamoré, além de ser convidado a se retirar do prédio em que se instalara a prefeitura (em frente ao Mercado Central), bem como da casa onde morava e que pertencia à estrada de ferro.
Guapindaia continuou sua investida contra os ferroviários, proibindo a retirada de dormentes e lenha dos locais que ele julgava estar de fora dos limites concedidos à ferrovia.
Tal medida gerou revolta, não somente nos chefes ferroviários, mas também dos que viviam de empreiteiras na extração de madeira, tendo os advogados da companhia entrado com recursos e, ao mesmo tempo, pressionando o superintendente para uma prestação de constas.

O ALAMBRADO

Mercado Municipal construído pelo Guapindaia na antiga rua Divisória. 
A intendência aprovou lei autorizando o superintendente  a dar nomes as ruas, sendo chamada de Avenida Divisória a que separava as terras da companhia das terras do município, que é a atual Av. Presidente Dutra, e nela  os ferroviários construíram um alambrado separando as terras da Madeora-Mamoré. As outras ruas foram denominadas Sete de Setembro, Rio Branco, Floriano Peixoto e Pedro II, embora algumas fossem apenas caminhos tortuosos. Em 1919, Guapindaia tentou eleger-se prefeito de Porto Velho, porém, não era pessoa grata da Madeira-Mamoré e, embora fosse apoiado pelo Dr. Joaquim Tanajura, foi derrotado pelo Padre Dr. Raimundo Oliveira. O Governo de Guapindaia o primeiro de Porto Velho, foi de 24 de janeiro de 1915 a 31 de dezembro de 1916, quando foi empossado o Dr. Joaquim Tanajura, eleito para o triênio de 1917 a 1919.     
Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098