quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Margens de Rondônia

Rio Preto - Candeias do Jamari
Do que falam as margens? O que revelam? Ou ocultam? Fala-se delas ou elas? Dos discursos historiográficos que tratamos pouco importa trocar as margens de lugar. Não se trata de inverter ou eleger centros e periferias da história. A questão estaria menos no local – espaço geográfico – mas, sim, no papel ocupado por algumas narrativas e seus cenários num determinado discurso historiográfico, que nacional, homogêneo e hegemônico.
Rondônia é a cristalizada por culturas que nasceram no berço dos seus rios, e aqui, somos agraciados pelos rios Madeira, Mamoré e Guaporé, e como uma tríade, uma Santíssima Trindade, proporcionaram no passado, o ingresso dos sertanistas, a sobrevivência dos nativos, e no presente a permanência de algumas comunidades caboclas e tradicionais.
Rio Pakaas em Guajará Mirim
E os rios têm seus senhores e também seus servos. Sociedades indígenas reinventam-se como no Mamoré e Pakaas. Podemos, assim, percorrer os desvãos das corredeiras do Madeira e da vida de índios que por ali ainda existem. Ritos e sons dos rios confundem e são confundidos com as experiências de indígenas e setores envolventes. O Guaporé ganha vida histórica. Como a Amazônia, ele também é inventado como região, espaço geoecológico. Dele expulsa-se a história. Mas a recuperamos nos relatos de conquistas. O silenciado e o enfatizado se invertem. Menos mediação da natureza e, sim, expectativas e percepções. E de carne e osso, sangue e coração. São povos como os quilombolas de Santa Fé e Santo Antônio das Pedras Negras no Guaporé refazendo o contato colonial, suas identidades e, portanto, a si mesmos. O Outro paulatinamente reinventa o Nós. E ambos mudam. Desejos da conquista e colonização são escravos das canoas, e estas dos rios.

Rio Madeira - Porto Velho
Ao tentar fazer alusão a grande aventura de navegar pelo vasto desconhecido da Amazônia, passado este, vivido pelos bandeirantes e sertanistas, encontramos, não apenas um grande desafio, mas no presente, uma enorme sintonia com a natureza envolta pelos seus rios de uma beleza que somente quem vive na Amazônia poderia entender. Por alguns rios que naveguei em meu caiaque, pude não apenas viver uma nobre aventura, mas pude sentir e imaginar as dificuldades enfrentadas no passado, pelos navegantes que desafiaram primeiro a grande floresta de Rondônia. Estes nos deixaram no presente, a Amazônia, inexplorada em quase sua totalidade, embora por aqui, a história nos diz, passaram os destemidos pioneiros. Estes enfrentaram, problemas bem maiores para fazer valer a presença do homem neste recanto do planeta.  Naveguei com minha modesta embarcação da aventura, pelo Rio Madeira, o majestoso e perigoso Madeira, e assim consegui mensurar de perto o quando devemos respeitar a força de suas águas, a força de suas lendas e a energia de seu curso. Senti o calor da emoção de navegar no encontro do Rio Beni e Mamoré entre Guajará-Mirim e Nova Mamoré, onde a fronteira não é apenas representada por um detalhe geográfico, mas, sim pela diversidade da cultura, história e natureza. Conheci também o encontro da águas do Pacaas e Mamoré. Rios distintos que não se misturam, mas são homogêneos no que tange a harmonia da Amazônia e seu enorme ecossistema.
Rio Beni e Mamoré - fronteira Bolívia e Rondônia
O que falar então do Rio Guaporé? Palco de batalhas entre portugueses e espanhóis no século XVIII, que disputavam no passado a posse do lugar, em virtude das riquezas da Amazônia Guaporeana, sendo estas: o ouro e as drogas do sertão. Hoje, a disputa é exercida pelos pássaros, animais selvagens, peixes e bôtos, onde a procura por um território por tais espécies, geram uma busca incessante pelo demarcar e defender,  palmo a palmo,  o seu espaço na floresta. Se no passado o Eldorado era sinônimo de ouro e prata para os colonizadores, para nós, que vivem em Rondônia, o verdadeiro eldorado é uma esmeralda, verde e polida. O nosso Eldorado é o verde da Amazônia, e essa; de maneira sustentável, devemos explorar e defender.   
Rio Madeira - Porto Velho.
Em muitos artigos e manuais – o que se passou chamar de Amazônia foi verdadeiramente expulso. Uma expulsão histórica, uma cada vez historiográfica. Inventada como região – unida e homogeneizada – a Amazônia foi transformada num mundo distante. Da história distante, mas próxima da natureza. Reintegrar estes mundos não é tão-somente um esforço bem intencionado ou politicamente correto de compreender o regional. Significa entender a construção de ima(r)gens naquilo que nomeamos Amazônia, experiências não foram miméticas ou variáveis passivas de mundos dela distantes, mas ligados pelo cultura e viver dos seus rios.

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87

Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Atraquei no meu Porto Velho

Aleks Palitot no Rio Madeira
Diz a lenda, reza uma possível ou provável história, que na beira do Madeira, pelos braços de um velho lenhador, codinome Pimentel, surge um porto. Esse porto, do velho ou não, ponto militar ou porto militar, que no passado serviu para guerra, e para nós trouxe a paz. Nosso porto, porto seguro, porto de amor, porto velho, do velho fervor. Não sei se existiu, se existe prova cabal, daquele que sugere o nome de PORTO VELHO, o porto, que apesar de velho, se tornou para muitos, uma nova morada. 
Na beira do Madeira, e nas margens da ferrovia, surge cidade moderna, cidade tardia, cidade dos tempos áureos, que não duram, nunca vão, jamais serão para nós duradouros. A não ser, na lembrança, uma boa lembrança dos tempos de criança, de cidade limpa, lugar onde todos se conheciam, Porto Velho ainda cidade provinciana. Cidade das gírias, era legal quisó, granfino, a cidade era um pizeiro.
O Porto dos ciclos, explorado no tempo, de braços abertos, recebeu a todos que aqui vieram. Assim, de coração escancarado, o velho porto, vira nova morada, do mundo novo, de pessoas novas, que hão de construir suas vidas, histórias, vitórias no sol escaldante, da terra de povos nativos, caboclos e pioneiros.
Esta cidade amiga, que nunca talvez fora erguida, apenas em um tempo. Foi ao longo dos ciclos, economias formadas, das drogas dos sertões, da corrida do ouro, do sangrar da seringueira, da extração da borracha que pelos trilhos da Madeira Mamoré, que seguiam do centro da Floresta, passando pelo velho porto, e pelo rio para o centro mundo. 
O mundo esteve aqui, na ocupação, na exploração, na construção do sonhar, e eita sonho difícil, Eldorado tão procurado, a que todos tentavam achar.
Muitas vidas aqui ceifadas, muitas vidas injustiçadas, mas o porto, de muita gente, se torna o nosso símbolo, de vida nova, de uma nova história para todos os presentes. 
Da infância lembro bem, da vida entre os limites do Areal e da Baixa União. Brincar de pira, peão, rouba bandeira, peteca, pipa ou papagaio, na antiga Norte e Sul, hoje Rogério Weber. 
E o que fazer no final de semana naquele tempo? Têm o cine Lacerda, ou Cine Brasil, a piscina Clube Ferroviário. O que gostava mesmo, era brincar de betis na rua, correndo pra lá, corre pra cá, vamos se esconder? Ficava melhor quando faltava à luz. Era uma gritaria tremenda, na cidade pequena onde tudo se via e ouvia. E quando a luz voltava? Uma outra gritaria. Tempos ruins sem a luz? Que nada. O céu era visível, as estrelas nítidas, o sonho possível e a vida mais simples e animada. 
Porto Velho 100 anos, muita história? Claro. Mas, cada um de nós têm a sua própria história. A parte preferida, o seu olhar sobre nós mesmos. O que lembrar? Do Porto Velho Hotel e sua varanda com a presença dos poetas? Ou da Praça das Caixas d’água? Difícil esquecer da saltenha do Jota Lima. 
Cidade antiga, que infelizmente não vive e nem preserva seu passado. Parece ter vergonha da sua história e identidade. Cidade machucada, esburacada, sem orgulho. Mas, ainda, é um porto, porto seguro, o porto da vida de todos, porto de simples esperança. Esperança de uma cidade mais limpa, limpa de tudo. Limpa da sujeira, limpa da corrupção e do abandono.
Podemos começar do zero depois de 100 anos, e tentar acertar o que erramos.  Enaltecer e cuidar do que nós nos orgulhamos.
Minha velha infância, do passado permanente no presente. Dos tempos de fugir de casa para roubar manga, de correr tranqüilo pela rua, de seguir sempre, pelos cantos da cidade sem nunca se perder, a não ser nas brincadeiras de rua. Saudades de não estar perdido e se sentir estranho, no canto que se escolheu para viver.
Nasci aqui, e tenho orgulho do meu DNA. Porto Velho te amo muito. Mas parece que aqui, a maioria são os que não te amam mais.

Aleks Palitot
Professor e Historiador

    

domingo, 13 de outubro de 2013

Ruínas da História, fortim de Bragança

O capitão general, Antônio Rolim de Moura, foi o primeiro Governador da capitania do Mato Grosso, deixando a planejada e recém fundada Vila Bela da Santíssima Trindade, o aguerrido Capitão General, desceu o Rio Guaporé e desalojou a missão de Santa Rosa, formada pelos jesuítas espanhóis, que trabalhavam a serviço da Coroa Espanhola.
Forte Nossa Senhora da Conceição no Rio Guaporé
Antônio Rolim de Moura, com seus soldados, que eram sertanistas da região do Guaporé, transformado em 1760, a guarnição de Santa Rosa Velha em um fortim pentagonal, que recebeu o nome de Santa Nossa Senhora da Conceição, muito vulnerável e protegido apenas por frágil estaca.
Este fortim sofreu várias investidas dos espanhóis, o que obrigou Rolim de Moura a descer de Vila Bela e defendê-lo.
Ruínas do Forte de Bragança (Conceição)
No dia 17 de abril de 1762, os Espanhóis desembocaram no rio Guaporé, pelo Itomanas com uma forte expedição militar que contava com 1.200 homens, conduzidos em 40  canoas que pretendiam expulsar do sítio mal fortificado, a guarnição comandada pelo próprio Rolim de Moura que dispunha, de pouco mais de 200 combatentes às suas ordens.
Parte Frontal do Fortim, de frente para o Rio Guaporé

Depois de uma bem sucedida ação militar de Rolim de Moura e de Francisco Xavier Tejo, incrivelmente os espanhóis foram expulsos da região. O Forte Conceição passou por reformas posteriormente, com o objetivo de consolidar a presença portuguesa na região, por isso, foi renomeado com o nome de Forte de Bragança, em homenagem a família real portuguesa. Enfim, o forte foi ampliado, melhor estruturado e seu contingente militar ampliado. Mas, antes de um novo combate, o Forte é inundado por uma surpreendente cheia do Rio Guaporé, e é abandonado. 
Muralha do Fote
O que resta atualmente do fortim, que fica cerca de 4km do Forte Príncipe da Beira, são apenas algumas muralhas e alicerces, longe da estrutura imponente que ajudou os portugueses a delimitar seus territórios. Os mesmos portugueses saíram vitoriosos nas pelegas contra os espanhóis, mas, foram derrotados pela força da natureza, pela força das águas, pelo supremo poder da Amazônia.

Aleksander Palitot
Professor e Historiador   



sábado, 28 de setembro de 2013

Símbolo de Rondônia descoberto pelo Mito


Às margens do Guaporé, no hoje Estado de Rondônia, a noroeste do Brasil, ergueu-se as seculares muralhas do Real Forte Príncipe da Beira. Implantá-las em sítio ainda hoje de difícil acesso, representa um feito extraordinário e uma relíquia da engenharia militar portuguesa, engastada na Floresta Amazônica.
Com o objetivo precípuo de defender o imenso território colonial português(Brasil), sentiram os colonizadores portugueses a inevitável necessidade de edificar fortificações, em pontos estratégicos do imenso território colonizado. Fortaleza que foi abandonada em 1889 durante a Proclamação da República e redescoberta por Marechal Rondon em 1914.
Foram anos de trabalhos árduos. Estas muralhas testemunham hoje a têmpera dos seus construtores, refletem a vontade férrea, a determinação inabalável, que os animaram para enfrentar os desafios e as adversidades resultantes da enormidade das distâncias, da agressividade da floresta e dos animais selvagens, do desgaste físico provocado pelas doenças e das investidas do oponente externo.

Cessadas as ameaças externas contra as quais se ergueu o Forte Príncipe da Beira, esteve por longos anos desguarnecido, abandonado, a floresta chegou a apagá-lo do conhecimento e da memória nacional. Gerações de brasileiros ignoravam a sua existência, até que, em 1914, Cândido Rondon o reencontrasse. De 1930 para os nossos dias, O Exército brasileiro voltou a guarnecê-lo.
Os homens do século XVIII, ao construírem esse Forte, deram seu trabalho e , alguns, sua vida, visando conquistar um patrimônio não para si, mas para as gerações seguintes. Patrimônio que, preservado a cada geração e consolidado pelo Marechal Rondon e seus companheiros, se converterá em efetivo pólo de geração e riquezas para os brasileiros.
Rondon tinha na solas dos pés o mais longo caminho jamais percorrido; andarilho infatigável, das sendas do oeste, na patriótica faina de pacificar ao seu modo os índios, de resgatar ao convívio nacional as distantes comunidades pelos fios telegráficos e de abrir novos rumos para a integração das esquecidas lindes, defrontou-se Rondon com as destruídas muralhas do velho Forte.
No ano de 1934 foi iniciado junto ao Forte, a construção de novas instalações destinadas a um quartel que passou a servir como local onde fora sediado, durante vários anos, o 7° Pelotão de fronteira, ligado à 6° Companhia de Fronteira, que se encontrava instalada em Guajará-Mirim.
O Forte é uma parte daquele passado. Ele atesta a energia,a vontade de um povo que é a nossa raça. Da fibra dessa raça iria surgir no Guaporé o sincretismo cultural do caboclo, dos quilombolas, dos seringueiros, dos povos indígenas. É esse povo hoje, que defendem com suas tradições, a identidade Amazônica esquecida e abandonada nas fronteiras. Não é apenas a Fortaleza da Floresta que está abandonada, é o povo ribeirinho do Guaporé, que seguem com suas vidas com todas as dificuldades, sem ajuda dos gestores públicos, na região que é berço da nossa história e vida.

Aleks Palitot
Historiador